Não há dúvidas de que o alimento mais completo, complexo e nutritivo que existe só possa ser produzido por mulheres: o leite materno. Também não há dúvidas de que a nossa construção social, impregnada pelo patriarcado, historicamente sobrecarrega a mulher, atribuindo a ela o principal papel na execução de todas as tarefas do lar e de cuidado, incluindo o cozinhar. 

Como a cozinha doméstica sempre foi reconhecida como território feminino, não à toa elas se tornaram as guardiãs da culinária tradicional e da comida de verdade. Receitas consagradas, em diferentes culturas, foram produzidas e repassadas por mulheres de geração em geração. 

Com a inserção da mulher no mercado de trabalho e as evoluções tecnológicas na produção de alimentos, a indústria se apropria de um discurso da utilização dos ultraprocessados como solução para livrar a mulher da cozinha. Afinal, são alimentos práticos e requerem pouco ou nenhum preparo prévio ao seu consumo. 

O pensamento feminista e científico reconhece que a comida de verdade não deve sair dos nossos pratos e, ao mesmo tempo, que as mulheres precisam se libertar da sobrecarga de trabalho fora e dentro de casa

Reconhecendo todas as comprovações científicas de que o consumo exagerado de ultraprocessados faz mal para a saúde, poderíamos pressupor um dilema: afinal, a mulher deve mesmo se emancipar da cozinha, optando por soluções mais fáceis para a alimentação dela e de toda a família?

O pensamento progressista, feminista e científico reconhece que a comida de verdade e a culinária tradicional não devem sair dos nossos pratos e, ao mesmo tempo, que as mulheres precisam se libertar (e serem libertadas) da sobrecarga das jornadas contínuas de trabalho fora e dentro de casa. Para isso, é fundamental a divisão das tarefas domésticas. A porta da cozinha não deve se fechar para a mulher, mas sim se abrir para toda a família. 

E ainda pensando sobre as conexões entre as mulheres com a alimentação, algumas histórias me vieram à mente para ilustrar a complexidade e a importância dessa relação. 

Primeiro, me lembrei da minha avó, que era merendeira e fazia diariamente comida para centenas de crianças em uma escola no interior de Minas. Cozinhando com muito afeto e sabor, ela não percebia o seu importante papel na segurança alimentar e nutricional desses estudantes. 

Depois, me lembrei de um conjunto de mães da periferia de Porto Alegre, que começaram a se organizar para garantir doações de cestas básicas para suas famílias, se fortaleceram como coletividade e, depois de sanada essa demanda mais urgente, hoje buscam insumos também para outros fins, como autoestima e autocuidado do grupo. 

O papel histórico da mulher na alimentação não pode ser esquecido e desvalorizado, mas precisa ser ressignificado

Lembrei também das pesquisadoras, como as do Nupens, que com o alimento como principal objeto de estudo se tornam algumas das cientistas mais citadas do mundo, contribuindo enormemente para a evolução desse campo de conhecimento. 

A relação da mulher com a alimentação é ampla e profunda. Seu papel histórico não pode ser esquecido e desvalorizado, mas precisa ser ressignificado, na medida em que a potência feminina diante da comida deve ser expressa de maneira não misógina, livre e empoderada.