Com um conjunto vasto de evidências científicas sobre a relação entre alimentos ultraprocessados e doenças crônicas, a epidemiologia nutricional passa a observar outros efeitos destes produtos à saúde humana. Um deles é o da substituição. Sabe-se que, ao comer um ultraprocessado, não apenas consome-se um produto associado a quadros como obesidade e diabetes, mas deixa-se de ingerir alimentos in natura — estes, sim, promotores de saúde.

O mesmo ocorre com a ingestão de líquidos. Quando se escolhe tomar refrigerante, por exemplo, dificilmente haverá consumo de água. Uma recente pesquisa do Nupens, no entanto, mostra que a relação dos ultraprocessados com a água vai além da substituição.

Publicada no Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics, a pesquisa “Associações entre o consumo de alimentos ultraprocessados e a ingestão total de água na população dos EUA” concluiu que, quanto maior o consumo de ultraprocessados, menor é o consumo diário total de água. O estudo foi liderado por Larissa Baraldi, pesquisadora do Núcleo, e também é assinado por outros três integrantes do Nupens (Euridice Steele, Maria Laura Louzada e Carlos Monteiro). Leia a íntegra do estudo (em inglês).

A pesquisa

Os cientistas trabalharam com dados da NHANES, a pesquisa nacional de nutrição e saúde realizada continuamente nos EUA, analisando informações de quase 25 mil indivíduos. A ideia era classificar os participantes em quintis (cinco grupos — dos que menos consomem ultraprocessados aos que mais ingerem este tipo de produto) e avaliar suas quantidades totais de água ingerida.

O consumo total de água inclui, além da ingestão de água engarrafada ou de torneira, o teor do líquido presente em alimentos e bebidas em geral.

As análises mostraram que 57,9% das calorias consumidas pela população analisada vieram de alimentos ultraprocessados (sendo pães, bolos e lanches salgados os principais), enquanto apenas 28,6% eram de alimentos in natura ou minimamente processados (com destaque para carne, frutas e leite).

Na contramão, a maior parte da água consumida veio das opções in natura ou minimamente processadas (67,5%, sendo os campeões — além da própria água — café, leite e frutas), enquanto ultraprocessados contribuíram com 26,7% (vindos principalmente de bebidas adoçadas).

Quando categorizados em quintis, os participantes apresentaram uma diferença de 553ml na ingestão total de água: por dia, quem consumiu menos ultraprocessados ingeriu cerca de 3 litros. O valor cai para cerca de 2,5 litros entre aqueles que consumiram mais ultraprocessados.

 

 

A importância da água

Um maior consumo de água é amplamente incentivado por instituições de promoção da saúde. Isso porque o líquido é necessário em praticamente todas as funções do organismo, sendo essencial para a regulação metabólica, a manutenção da homeostase (o equilíbrio do corpo) e a prevenção de doenças crônicas não transmissíveis (como diabetes e hipertensão).

Quadros de desidratação, ainda que leves, já foram associados, por exemplo, a um maior risco de desenvolvimento de cálculos renais e até de uma piora da função cognitiva. Apesar da conhecida recomendação de ingestão diária de 2 litros de água por dia, a definição de uma quantidade ideal é um desafio, variando de acordo com níveis de atividade física, idade, clima na região habitada e questões metabólicas.

Água e ultraprocessados

A associação entre um maior consumo de ultraprocessados e um menor consumo de água vinda de alimentos sólidos era, de certa forma, esperada. No processamento, é comum que a indústria retire água dos alimentos: desta forma, controlam a textura dos produtos (deixando-os mais secos e crocantes, por exemplo), aumentam a chamada “vida de prateleira” (os alimentos duram mais porque um baixo nível de água inibe o crescimento de bactérias) e reduzem os custos de distribuição (já que os produtos ficam mais leves).

Por outro lado, alimentos in natura ou minimamente processados costumam ter um teor de água mais alto, não costumam sofrer desidratações antes da venda e, por vezes, são reidratados durante o cozimento.

Outros fatores, no entanto, podem contribuir para a associação. Sabe-se que, a partir de certa quantidade, o consumo de calorias ativa mecanismos de saciedade no cérebro, o que faz com que paremos de comer e beber. No caso dos ultraprocessados, que costumam ser mais calóricos, é possível que seu efeito seja o de reduzir a sensação de sede, mesmo que a quantidade de água ingerida seja insuficiente.

O estudo também permitiu observar que a redução da quantidade de água procedente de alimentos líquidos pode ser explicada pela substituição de água pura ou bebidas não adoçadas por opções adoçadas, seja por açúcar ou por aditivos artificiais. O resultado vai ao encontro de uma pesquisa feita com crianças e adolescentes americanos: aqueles que reportaram consumo de água consumiram 50% menos bebidas adoçadas em comparação àqueles que não reportaram nenhum consumo de água.

A pesquisa do Nupens é uma das primeiras a tratar do tema. Mais estudos são necessários para esclarecer o efeito da dieta ultraprocessada nos níveis de hidratação corporal. Leia a pesquisa na íntegra (em inglês).