CPaS-1 – Coletive de Pesquisa em Antropologia, Arte e Saúde Pública

em dezembro de 2020, fui ao museu da resistência, em São Paulo. quando recebi o convite não estava pensando tanto na exposição, mas sim na necessidade de sair e esparecer da pesquisa e da Pandemia, era um espaço aberto e pouco movimentado, uma boa oportunidade.

lembro que quando cheguei ao local, que pude entender que ali era o espaço do antigo doi-codi da ditadura, durante toda a primeira parte da exposição fiquei por vezes impactada, mas na pressa seguia vendo, enquanto o Pablo, um amigo que foi comigo, ficava para trás, ele sempre mais calmo , observava as coisas em outro tempo.

ao chegar na área das celas, não conseguia entrar, lembro de ficar um bom tempo parada e olhando aquele espaço de fora, veio um choro preso e uma sensação de sufoco, não dava para entrar. após uns 5 min, me chega o Pablo, me encorajando e dando apoio para entrar, assim que entro, olho a parede e essa foi a primeira coisa que me vem aos olhos.ao chegar na área das celas, não conseguia entrar, lembro de ficar um bom tempo parada e olhando aquele espaço de fora, veio um choro preso e uma sensação de sufoco, não dava para entrar. após uns 5 min, me chega o Pablo, me encorajando e dando apoio para entrar, assim que entro, olho a parede e essa foi a primeira coisa que me vem aos olhos.

Fotografia de cela do antigo DOI-COIDI da cidade de São Paulo.

ali a ficha caiu, vivemos um constante cenário de ditadura, para diversos corpos  no Brasil, nada mudou, a ditadura nunca acabou, a escravidão também não, tudo é ainda do mesmo modo, contudo melhor estruturado. o sistema carcerário tortura mulheres com seus bebês, algo que a pesquisa meses depois me ofereceu substância para sustentar a visão. porém, desde aquele dia me questiono, a imagem me roda a cabeça e mesmo que (imaginando) motivos, ainda não entendo, porque para nós pode ser tão tranquilo saber que bebês são gestados, paridos e criados em celas? que esses bebês são usados de ameaça e arma contra suas mães?

durante a pesquisa, descobri lendo alguns estudos, que profissionais da saúde condicionam ainda a permanência do bebê com sua mãe a capacidade dela de amamentar, passam por cima de qualquer recomendação, pelas dores dessas, pelas incertezas, medos… tudo pelo nutrir biomédico, torturam psicologicamente até atenderem suas vontades, essas, em maioria negras, pobres e jovens, que só tem medo e um bebê em mãos, atendem e não são defendidas por suas famílias,  seus companheiro ou companheiras , pelo Estado ou mesmo algum setor da sociedade.

ainda roda em minha mente, porque corpos negros no Brasil desde que esse país foi invadido, são destinados desde o ventre a alguma categoria de prisão? quando esses corpos serão reconhecidos como seres com vida? porque mulheres, quando erram ou comentem crimes, estão destinadas a esse total desamparo de todos os setores da sociedade?