Presença de alimentos in natura (frutas e outros vegetais) na entrada dos estabelecimentos conta pontos positivos

É comum que não se perceba, mas escolher o que se come — para aqueles que têm o privilégio da escolha — é um processo complexo. Para além das preferências e das orientações de profissionais de saúde ou do Guia Alimentar para a População Brasileira, a decisão é relacionada a uma série de outros pontos: exemplos são a disponibilidade dos alimentos, o preço, as informações nos rótulos e até o marketing dos produtos.

Este conjunto de fatores forma o chamado de ambiente alimentar, um conceito cada vez mais comum na ciência da epidemiologia nutricional. Neste sentido, estabelecimentos de venda de alimentos podem incentivar escolhas mais saudáveis ou, pelo contrário, dificultá-las. É provável, por exemplo, que a variedade de hortaliças frescas em uma feira livre despertem o desejo de consumi-las, enquanto, nos supermercados, a tentação do biscoito recheado perto do caixa ou de promoções do tipo “pague 2 refrigerantes e leve 3” seja mais presente.

Como, no entanto, classificar os comércios de alimentos como mais ou menos saudáveis? Pensando nesta pergunta, o Nupens criou um sistema de pontuação para auxiliar pesquisadores na avaliação da qualidade de ambientes alimentares no varejo. O projeto foi desenvolvido pelas pesquisadoras Camila Borges, Kamila Gabe e Patrícia Jaime e teve artigo publicado no International Journal of Environmental Research and Public Health.

A ferramenta

Denominado Pontuação de Saudabilidade do Ambiente Alimentar do Consumidor (CFEHS, na sigla em inglês), o sistema tem base em uma minuciosa checagem dos estabelecimentos, levando em conta duas dimensões: a alimentar (disponibilidade de alimentos e promoções de preço) e a ambiental (presença de peças publicitárias, informações e posicionamento dos produtos no espaço de venda).

Mercados públicos especializados em alimentos frescos tiveram pontuação mais alta e podem ser vistos como ambientes saudáveis

A pontuação é feita com base na classificação NOVA, que divide os alimentos em função de seu processamento. Desta forma, a disponibilidade de frutas e outros vegetais próximos à entrada da loja garante pontos positivos ao estabelecimento, enquanto ações como o uso de publicidade para incentivar a compra de ultraprocessados faz com que o varejista perca pontos negativos.

O modelo é aplicável a oito categorias de comércio: mercados municipais, quitandas, supermercados, lojas de snacks e doces, açougues/peixarias, lojas de bebidas, lojas de conveniência/farmácias/suplementos e, por fim, padarias. Bares e restaurantes não podem ser analisados pela ferramenta por exigirem outros critérios.

“O estudo mostrou que mercados públicos especializados em alimentos frescos tiveram pontuação mais alta e podem ser vistos como ambientes saudáveis”, comentam as pesquisadoras no artigo. O desenvolvimento do sistema contou com testes e validações em estabelecimentos na cidade de Jundiaí, no interior de São Paulo. Durante a pesquisa, 650 lojas foram auditadas por pesquisadores treinados para aplicar a ferramenta e com domínio da classificação NOVA. A aplicação da CFEHS depende de uma auditoria prévia, feita por meio de uma outra ferramenta — a AUDITNOVA — também criada por cientistas do Nupens.

Desenvolvida em um contexto científico, a pontuação pode ser utilizada por pesquisadores interessados em avaliar e comparar o nível de saudabilidade de estabelecimentos, além de possibilitar a análise de relações entre ambientes alimentares e desfechos de saúde. Leia a pesquisa na íntegra.