Uma nova edição temática publicada pela revista The Lancet afirma que o aumento global no consumo de alimentos ultraprocessados constitui uma ameaça urgente à saúde pública e exige uma reforma política em escala mundial. A “Série The Lancet sobre Alimentos Ultraprocessados e Saúde Humana”, liderada por cientistas do Nupens e parceiros da Austrália e Chile, revisou evidências robustas indicando que os ultraprocessados estão substituindo alimentos in natura e minimamente processados nas refeições e estão associados ao maior risco de diversas doenças crônicas.
Além da participação destacada de Carlos Monteiro , pesquisador e fundador do Nupens, os artigos contam com contribuições dos seguintes pesquisadores vinculados ao Núcleo:: Patricia Jaime (coordenadora científica), Maria Laura Louzada (vice-coordenadora científica), Renata Levy, Eurídice Steele-Martinez, Giovanna Andrade, Ana Clara Duran, Priscila P Machado, Jean-Claude Moubarac e Leandro Rezende.
Evidências científicas justificam ação imediata
O primeiro artigo da série revisa estudos publicados desde que o conceito de ultraprocessados foi criado pelo Nupens/USP em 2009. As evidências mostram que dietas ricas nesses produtos:
pioram a qualidade nutricional; aumentam a ingestão calórica; expõem consumidores a aditivos e contaminantes químicos; elevam o risco de obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, depressão, declínio cognitivo e morte precoce.
Uma revisão conduzida para a série analisou 104 estudos de longo prazo: 92 encontraram associação entre ultraprocessados e uma ou mais doenças crônicas. Embora reconheçam lacunas de pesquisa – como a necessidade de mais ensaios clínicos – os autores afirmam que tais pontos não devem atrasar respostas de saúde pública.
Carlos Monteiro destaca:
“O consumo crescente de ultraprocessados está reestruturando as dietas no mundo inteiro. Essa mudança é impulsionada por grandes corporações globais, apoiadas por estratégias de marketing e lobby que bloqueiam políticas de promoção da alimentação adequada e saudável.”
Políticas públicas para reduzir produção, publicidade e consumo
O segundo artigo apresenta um conjunto de políticas integradas para enfrentar o avanço dos ultraprocessados e melhorar o acesso a alimentos saudáveis. Entre as ações propostas estão:
inclusão de ingredientes tipicamente ultraprocessados (corantes, aromatizantes, adoçantes) nos rótulos frontais; restrições rigorosas à publicidade, especialmente para crianças e na mídia digital; proibição desses produtos em escolas e instituições públicas; limitação de sua exposição em supermercados; mecanismos fiscais para desestimular o consumo e financiar o acesso a alimentos frescos.
O texto destaca experiências bem-sucedidas, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) do Brasil, que eliminará a maior parte dos ultraprocessados até 2026.
Sistema alimentar impulsionado pelo lucro exige resposta política global
O terceiro artigo demonstra que o consumo desses produtos é impulsionado por estratégias corporativas altamente lucrativas — e não por escolhas individuais isoladas. Com vendas globais de US$ 1,9 trilhão, os ultraprocessados são o setor mais rentável da indústria alimentícia, fortalecendo o poder político das empresas. Essas corporações utilizam: grupos de interesse para moldar políticas; lobby e financiamento eleitoral; estratégias jurídicas para bloquear regulações; campanhas de marketing e relações públicas que confundem o debate público.
Os autores defendem uma resposta global articulada, semelhante às iniciativas que enfrentaram o tabaco nas últimas décadas, para proteger processos regulatórios de interferência da indústria, encerrar parcerias entre empresas de ultraprocessados e organizações de saúde e fortalecer coalizões internacionais pela alimentação saudável.
Um caminho possível
A série conclui que enfrentar os ultraprocessados requer repensar os sistemas alimentares, valorizando alimentos frescos, produtores locais, tradições culturais e mecanismos que garantam acesso equitativo à alimentação adequada e saudável.
Phillip Baker (Universidade de Sidney, Austrália) resume: “Vivemos em um mundo onde nossas escolhas alimentares são moldadas pelos ultraprocessados. Mas um caminho diferente é possível, combinando regulação eficaz, mobilização social e acesso ampliado a alimentos saudáveis.”