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Minha experiência com horta durante a quarentena

Fernando Xavier

Contexto

Embora tenha passado a maior parte da minha vida em grandes cidades, sempre gostei de ter contato com ambientes, digamos, mais “verdes”. Talvez por influência dos meus avós maternos quando, na infância, os ajudava a molhar as plantas e acompanhava as pequenas plantações de ervas e algumas espécies frutíferas. Mesmo depois de ter saído da cidade onde cresci, sempre me senti muito bem todas as vezes que tive algum contato com ambientes com muitas plantações. No entanto, eu mesmo nunca tive alguma experiência própria de plantar algo.

Como minha formação é em Computação, toda a minha trajetória profissional foi muito mais ligada a atividades longe de espaços verdes. Então, nos mais de 20 anos seguintes desde a saída da cidade onde minha mãe mora, minha vida tem sido dentro de escritórios e os contatos com o “verde” foram apenas em ocasiões esporádicas, normalmente em momentos de lazer. 

Mas isso começou a mudar quando trabalhei em um projeto para a ONU Meio Ambiente e MCTIC, entre 2016-2017, onde tive a felicidade de ter contato diário com profissionais das ciências ambientais. Aprendi muito com eles e isso despertou a vontade de estar mais nesse ambiente do que nos escritórios onde passei quase toda a minha trajetória profissional. Confesso que sinto uma certa “inveja” quando colegas meus dessas áreas contam suas histórias de trabalhos de campo, experiência que não tive (ainda) na minha trajetória acadêmica. A proximidade com eles e o cansaço da vida de escritório influenciou muito na definição dos temas de interesse para o desenvolvimento do meu doutorado.

Quando entrei no doutorado, até por conta da minha pesquisa ser ligada ao tema da saúde planetária, tive ainda mais interações com pesquisadores das ciências ambientais e da saúde, o que só tem reforçado a vontade que a minha carreira daqui para frente esteja relacionada a assuntos que me identifico mais, com a saúde das pessoas e do planeta. 

Através de uma dessas interações conheci o Sustentarea, projeto que não canso de elogiar sempre que tenho oportunidade. Não apenas pela questão da sustentabilidade, mas também pela forma como o Sustentarea se comunica com o público através de suas publicações, principalmente pelas redes sociais. A forma como o projeto divulga ciência e ajuda a transformar resultados de pesquisas em ações é algo que enxergo como um dos modelos de como os cientistas poderiam ser comunicar mais com a sociedade.

Acompanhando as postagens nas redes sociais do Sustentarea, a questão da sustentabilidade tem sido mais presente no meu dia a dia. Um exemplo de pequena mudança: como eu tomo iogurte diariamente, eu estava com muito daqueles copos plásticos de iogurte e, embora fizesse a separação correta de outros tipos de resíduos, ter aquela quantidade imensa de copos de plástico era algo que estava me incomodando muito. 

O que eu fiz: procurei doação de grãos de kefir e tem quase um ano que produzo meu próprio iogurte em casa. Muito mais saudável e mais sustentável. Mas ainda tem as caixas de leite. Já chegarei nesse ponto.

Como comecei 

Figura 1: Lentilha nascendo no meio da Espada
de São Jorge (Foto de 27/03)

Um dia, quando estava separando lentilha para cozinhar, um dos grãos caiu no chão. Não sei explicar por que, mas peguei o grão e joguei no vaso de Espada de São Jorge que tenho aqui em casa. Cerca de uma semana depois, me deparo com isso aqui:

A semente germinou e começou a crescer no meio da Espada de São Jorge, sem eu ter feito praticamente nada. Fiquei tão feliz de ver isso que me perguntei: “e se eu tentasse plantar algo em casa?”. Mas tinha decidido fazer isso a partir de uma premissa: vou plantar a partir do que tenho em casa, sem ter que comprar nada ou o mínimo possível

De fato, quase quatro meses depois, a única coisa que comprei foi terra, já que não tenho terra em casa. Mas e os vasos? Então, como uso leite para produzir o iogurte de kefir, sempre tenho caixas de leite e esses foram os recipientes que usei como se fossem vasos inicialmente. 

Figura 2: Uso de caixas de leite como vasos (Foto de 15/05/2020)

Eu também usei uns copos plásticos que tinha aqui também para tentar germinar semente. Mas não comprei esses copos! Estavam aqui quando mudei para essa quitinete e nunca tinha usado. Além desses materiais, resolvi experimentar outros para tentar germinar sementes e enraizar mudas:

Uma imagem contendo no interior, pequeno, sujo, velho

Descrição gerada automaticamente

Figura 3: Uso de cascas de ovo para germinar sementes (foto de 04/04/2020)

Com as cascas de ovo eu não tive sucesso ainda. As únicas sementes que germinaram foram as de lentilha. Tentei com sementes de tomate e pimentão, mas não deu certo.

Aliás, sobre as cascas de ovo, eu também tinha um “problema” a resolver. Como não consumo carne, minhas fontes de proteína animal são ovos e leite. Assim, acabo tendo muitas cascas de ovos acumuladas semanalmente e, já que para germinar sementes não deu certo, precisava achar um outro uso para elas.

Embora eu faça minhas experiências em casa, sempre estou procurando material de canais de hortas caseiras no YouTube. E diversos canais indicam que as cascas de ovos são fontes de cálcio para as plantas. Então, a cada 15 dias eu transformo as cascas em pó e aplico de tempos em tempos na terra. 

Diversos materiais podem suprir a terra de nutrientes e não precisam ser jogados no lixo. Um deles é a casca de banana. Ainda não fiz a receita de “carne” de casca de banana do Sustentarea, mas tenho reaproveitado as cascas de banana. Colocar as cascas de molho em água quente produz um líquido que pode ser usado como um fertilizante natural. Existem diversos vídeos no YouTube mostrando como fazer.

Figura 4: Uso de cascas de banana para produzir fertilizante natural (foto de 07/04/2020)

Voltando aos vasos para as plantas, uma coisa que tem acontecido é que olho cada recipiente que tenho em casa como um potencial vaso. Com isso, além das caixas de leite e cascas de ovos, já testei copos, latas de cerveja, embalagens de produtos de limpeza e garrafa de refrigerante. Aliás, para essa última existem muitos vídeos de como usar. Eu só tenho uma aqui porque evito tomar refrigerante.

Como as plantas estão se desenvolvendo e o espaço interno nas caixas de leite parecem insuficientes para estágios mais avançados de algumas plantas, tenho procurado comprar materiais de limpeza em recipientes com volume maior. A minha última experiência foi com uma embalagem de sabão líquido de três litros, para a qual transplantei uma muda de tomate:

Figura 5: Vaso de embalagem de sabão líquido (foto de 18/07/2020)

Hoje, entre os meus vasos adaptados, tenho caixas de leite, garrafa de refrigerante e embalagens de sabão líquido e amaciante:

Figura 6: Embalagens usadas como vasos (foto de 18/07/2020)

Comentários Finais

Não sei se isso acontece com todo mundo que inicia uma plantação em casa, mas sempre fico muito feliz quando vejo uma muda brotando. Ao criar uma horta em casa, também aparecem alguns visitantes:

Uma imagem contendo edifício, segurando, mulher, mesa

Descrição gerada automaticamente

Figura 7: Joaninha visitando a minha horta (foto de 15/07/2020)

Uma nota importante: claro que é bonito ver esses visitantes, mas há de se ter atenção para evitar acúmulo de água e, com isso, proliferar mosquitos. 

Até agora só tive colheita de folhas de cebola, que uso como tempero, e manjericão. As cebolas eu plantei a partir de partes de outras cebolas que comprei para consumo próprio. Para o manjericão, eu deixei galhos que comprei no mercado para consumo na água, para criar raízes e plantar na terra. Fiz o mesmo processo com a hortelã.

Como disse que não compraria nada para a minha horta e só usaria o que já tenho em casa, não comprei sementes. Uso as sementes a partir dos legumes que compro para consumo. Com isso, já tenho algumas mudas de tomate e pimentão:

Figura 8: Mudas de tomate e pimentão (foto de 15/07/2020)

Também já testei cenoura (para produzir as sementes), agrião, alface e espinafre, mas ainda não tive sucesso. Continuarei me informando mais e fazendo novos testes. Não descarto fazer algum curso na área, até para aprender com quem já tem experiência no assunto.

Posso dizer que essa experiência tem sido fascinante e de grande aprendizado na minha relação com o meio ambiente. Não precisamos de uma quarentena, muito espaço e nem muito dinheiro para fazer uma horta em casa. Dá para fazer muito sem agredir ainda mais o planeta. E, por mais que o planeta esteja bem maltratado por nós, há tempo para recuperar. Como mostrou a joaninha que apareceu na minha horta, a vida se faz presente toda vez que damos espaço a ela.  

One thought on “Sustentabilidade em prática: História do Fernando”

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