Capa estudo Carnes - Samantha, Maju e Isa

Pesquisadoras do Sustentarea publicam artigo que discute excesso de carne na dieta dos brasileiros

Cecília S. Klapka1, Danieli S. R. M2

Um estudo recente do grupo de pesquisa do Sustentarea, publicado pela Samantha Bonfim e colaboradoras na International Journal of Environmental Research and Public Health, traz à tona a discussão sobre o consumo de carne, abordando suas implicações tanto para a saúde quanto para o meio ambiente. O consumo elevado de carne está associado ao desenvolvimento de diversas doenças, como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e câncer, além de contribuir significativamente para o agravamento das mudanças climáticas — especialmente no caso da carne bovina, que está entre os principais responsáveis pela emissão de gases de efeito estufa.

Apesar disso, o setor pecuário constitui um componente relevante do agronegócio brasileiro, com notável contribuição para o Produto Interno Bruto (PIB) nacional. A relevância econômica da pecuária se estende ao cenário internacional, sendo o Brasil um importante destaque nas exportações de carne, o que contribui para a balança comercial do país. 

Ademais, a pecuária desempenha um papel na segurança alimentar ao fornecer proteína animal, um elemento frequente na alimentação dos brasileiros. No entanto, é crucial ressaltar que o acesso a essa proteína é desigual, sendo frequentemente limitado por fatores socioeconômicos que exacerbam as disparidades existentes no Brasil. 

Portanto, trata-se de um setor de extrema importância econômica e social, com forte presença em diferentes regiões e cadeias produtivas. Contudo, sua análise deve ser multifacetada, considerando tanto sua relevância econômica e sua contribuição para a disponibilidade de alimentos quanto os desafios persistentes relacionados à distribuição de renda, acesso aos alimentos e as complexas interconexões com a estrutura fundiária e as desigualdades sociais no país.

As pesquisadoras, em seu estudo, examinaram os padrões de consumo de carne bovina, de porco, de frango e peixes/frutos do mar, em diferentes regiões e grupos socioeconômicos do Brasil. O objetivo era entender como fatores como renda, educação e localização geográfica influenciam a frequência e o tipo de carne consumida pela população. 

Para isso, a Dieta Planetária — proposta pela Comissão EAT-Lancet em 2019 — foi utilizada como parâmetro de comparação. Essa dieta foi elaborada por um grupo interdisciplinar de cientistas da saúde, nutrição, agricultura e sustentabilidade, com o propósito de oferecer uma referência alimentar que seja, ao mesmo tempo, saudável para os seres humanos e sustentável para o planeta.

Essa dieta tem como base o consumo de plantas – frutas, grãos integrais, leguminosas, castanhas, nozes e gorduras insaturadas. Ela recomenda um consumo moderado de frango, peixes e frutos do mar e um consumo mínimo de carne vermelha, carnes processadas e vegetais ricos em amido, como batata e mandioca.

Para o estudos, as pesquisadoras utilizaram as recomendações em gramas por dia dessa dieta para um padrão de 2000 kcal/dia:

  • Carne bovina e de cordeiro: 5,6 g (intervalo possível: 0–11,2 g)
  • Carne suína: 5,6 g (0–11,2 g)
  • Carne de frango e outras aves: 23,2 g (0–46,4 g)
  • Peixes e frutos do mar: 22,4 g (0–80,0 g)
  • Total de carnes: 56,8 g (0–148,8 g)

A pesquisa mostrou que o consumo de carne no Brasil está significativamente acima das recomendações da Dieta Planetária. A média de consumo total de carne foi de 192,1 g por 2000 kcal/dia, sendo que mais de 50% da população ultrapassou o valor máximo recomendado. Especificamente, o consumo de carne bovina e de cordeiro foi o mais elevado: mais de 60% dos brasileiros ingeriram quantidades superiores ao recomendado (média de 5,6 g/dia), enquanto menos de 10% excederam o limite para peixes e frutos do mar. 

Houve variações importantes entre as regiões do país. O Centro-Oeste apresentou o maior consumo médio de carne bovina e de cordeiro (107,3 g/dia), seguido pelo Norte (92,0 g/dia) e pelo Sul (80,8 g/dia). O Sul e o Centro-Oeste também lideraram no consumo de carne suína, enquanto o Norte foi a única região onde o consumo médio de peixes e frutos do mar (64,0 g/dia) superou o valor máximo recomendado.

A análise dos fatores associados a esse alto consumo revelou que ser do gênero masculino, adulto e com maior renda, aumentou a chance de exceder as recomendações de consumo de carne, especialmente carne de boi e cordeiro. Essa associação pode estar relacionada a construções culturais, nas quais a carne é historicamente associada a poder, força e virilidade — atributos socialmente ligados à masculinidade.

Por outro lado, viver em áreas rurais e estar em situação de insegurança alimentar moderada ou grave reduziu essa probabilidade de se consumir mais carne. Curiosamente, a variável de cor/raça da pele não apresentou associação significativa com o excesso de consumo de nenhum dos tipos de carne analisados.

Com relação ao consumo total de carne, os residentes do Norte apresentaram o maior risco de ultrapassar os limites da dieta (OR: 2,3; IC95%: 2,0–2,7), seguidos por habitantes do Centro-Oeste (OR: 1,6). A condição de insegurança alimentar se mostrou, novamente, protetiva contra o alto consumo de carne total. Esses dados sugerem desigualdades regionais e socioeconômicas importantes, refletindo padrões alimentares que desafiam simultaneamente a saúde pública e a sustentabilidade ambiental.

O consumo de carne tem um caráter ambíguo: por um lado, é um alimento importante no combate à desnutrição e à insegurança alimentar; por outro, quando consumido em excesso, está associado a diversos problemas de saúde.

Além disso, compreender os padrões de consumo de carne da população nas diferentes regiões do país é essencial para pensar políticas públicas mais eficazes — tanto na área da saúde quanto no enfrentamento das mudanças climáticas. Afinal, a produção de carne tem um impacto significativo sobre o meio ambiente, contribuindo para o desmatamento, emissão de gases de efeito estufa e uso intensivo de recursos naturais.

A força cultural do consumo de carne em nossa sociedade, associada a hábitos e noções de status social, representa um desafio adicional. Desconstruir essas associações e promover narrativas que valorizem escolhas alimentares mais diversas e sustentáveis é um passo importante para uma mudança de paradigma.

Esse estudo nos convida a refletir que a promoção de uma alimentação saudável e sustentável no Brasil passa inevitavelmente pela construção de uma sociedade mais equitativa. Dessa forma, garantir o acesso físico e financeiro dos alimentos nutritivos para todos, independentemente de sua renda ou cor da pele, e também fomentar a conscientização sobre os impactos ambientais de nossas escolhas alimentares são pilares fundamentais para um futuro no qual a saúde humana e a do planeta caminhem juntas.

Assim, as escolhas que fazemos à mesa moldam não apenas o nosso corpo, mas também a sociedade e o futuro do planeta.


REFERÊNCIAS

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(In)SEGURANÇA alimentar e agricultura familiar: políticas públicas como estratégia de superação da fome. REFACS – Revista Família, Ciclos de Vida e Saúde no Contexto Social, Uberaba, v. 9, n. 3, p. 664-678, 2021.


¹  Mestranda em Nutrição e Saúde Pública na Faculdade de Saúde Púlica (FSP/USP), com pesquisas voltadas para relação de mudanças climáticas e nutrição de crianças menores de 5 anos. Mentora do Sustentarea. @ceciliaklapka

² Nutricionista, graduada pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), com atuação em pesquisa voltada para segurança e insegurança alimentar e renda de agricultores em área de reforma agrária. Membra do Sustentarea.  @danieli.nutri

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