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Da produção ao prato: como o clima extremo está moldando a saúde das próximas gerações

Por Mariana Ceci

Desde 2012, Ana Luiza Domingos vive fora do Brasil. Ao longo desses anos, entre idas e vindas ao país, a nutricionista começou a notar uma sensação estranha: a cada nova visita, o calor parecia mais intenso. “Minha mãe mora no Rio de Janeiro e, em uma dessas viagens, senti que meu corpo já não conseguia mais se adaptar”, lembra. Foi apenas dois anos e meio atrás, após o nascimento de seu filho Henrique, que Ana se deu conta de que aquela impressão não era apenas coisa da sua cabeça — e que seria preciso adotar medidas práticas para proteger a saúde da família durante as estadias no Brasil.

Ana não estava sozinha em sua percepção. As mudanças climáticas, que antes pareciam ser discutidas apenas por cientistas em relatórios distantes da maior parte da população, já começaram a desenhar marcas visíveis no cotidiano ao redor do mundo. Seja através da multiplicação de eventos extremos, como enchentes e secas prolongadas, seja na emergência silenciosa de quadros de desidratação e mal-estar provocados pelo calor sufocante, o impacto sobre a saúde humana se tornou impossível de ignorar. 

No campo da alimentação, não é diferente: cientistas alertam que mudanças climáticas, obesidade e desnutrição podem caminhar lado a lado — e juntas representam algumas das maiores ameaças à saúde e à sobrevivência humana no mundo contemporâneo. “Esse fenômeno passou a ser conhecido como ‘sindemia global’. As interações entre esses fatores ocorrem de forma indireta, mas têm efeitos concretos sobre a população”, explica a nutricionista Cecília Klapka, mestranda em Nutrição e Saúde Pública na Universidade de São Paulo (USP). “Sindemia” é um termo que pode ser usado de forma ampla para definir a ocorrência simultânea de duas ou mais doenças que interagem uma com a outra, ou compartilham de gatilhos em comum. 

Ela faz parte do Sustentarea, núcleo de pesquisa e extensão da USP que, desde 2012, investiga as conexões entre alimentação e sustentabilidade. Atualmente, sob a coordenação da professora Aline Martins de Carvalho, o grupo desenvolve um projeto dedicado a estudar os impactos das mudanças climáticas provocadas pelo ser humano na saúde e na nutrição de crianças menores de cinco anos atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). 

“As crianças estão entre os grupos mais vulneráveis às mudanças climáticas de modo geral, e isso se torna muito evidente a partir da alimentação”, afirma Brena Barreto, mestre em Nutrição e integrante do Sustentarea. Segundo a nutricionista, em crianças é possível observar com mais rapidez alterações como perda ou ganho de peso, além de sinais que podem indicar a instalação de um quadro de desnutrição.

A relação entre mudanças climáticas, obesidade e desnutrição pode, à primeira vista, parecer distante. No entanto, esses fenômenos estão profundamente interligados. As mudanças climáticas já impactam a produção de alimentos em todo o mundo, alterando a disponibilidade de diversos produtos tanto em função de transformações graduais nos ecossistemas quanto de eventos extremos, como secas prolongadas e enchentes.

“Foi o que vimos, por exemplo, no Rio Grande do Sul, quando a produção de arroz foi fortemente afetada pelas chuvas”, explica Klapka. Além de comprometer a produção e o acesso a alimentos, os desastres climáticos também atingem diretamente as famílias que vivem nas áreas afetadas, provocando deslocamentos, perdas econômicas e dificultando o acesso a uma alimentação adequada.

Além disso, as mudanças climáticas mais graduais que afetam a produção agrícola também podem elevar o preço de itens como frutas, verduras e legumes. Esse cenário agrava um problema já identificado por pesquisadores no contexto da sindemia global: a condição socioeconômica da população é um fator de risco decisivo. 

As mudanças climáticas ameaçam reverter avanços conquistados nas últimas cinco décadas na redução das taxas globais de desnutrição, alerta um relatório publicado na revista científica The Lancet em janeiro de 2019. De acordo com o documento, a desnutrição afeta de maneira desproporcional países da região central da África e do centro-sul da Ásia — áreas que, historicamente, já enfrentam maior vulnerabilidade.

O relatório também aponta que os custos futuros das mudanças climáticas são estimados entre 5% e 10% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, podendo ultrapassar 10% do PIB em países de baixa renda, piorando ainda mais a situação dos países que já são mais afetados por esses problemas. “Por isso é fundamental estudar esses fenômenos no Brasil, que é um país de dimensões continentais. Cada vez mais, a questão das mudanças climáticas vai precisar estar presente na nossa formulação de políticas públicas, inclusive na área de alimentação”, destaca Brena Barreto. 

Atualmente, o grupo analisa dados de vigilância nutricional em nível municipal de todo o país, com o objetivo de traçar um panorama mais preciso da situação nutricional de crianças de até cinco anos de idade. Concluída essa etapa, a equipe pretende investigar como as mudanças climáticas têm se manifestado nessas regiões e de que forma elas se relacionam com os quadros de desnutrição e obesidade em diferentes áreas.

“Compreender a realidade brasileira é fundamental, porque nossas demandas de alimentos variam muito de região para região. Esse mapeamento vai nos ajudar a entender como as mudanças climáticas estão atuando e afetando a saúde nutricional das crianças”, explica Barreto.

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