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Adolescentes sofreram diferentes impactos na saúde mental de acordo com o gênero, aponta pesquisa

Nicolas Kimura Generoso, graduando em Nutrição da FSP-USP, teve seu artigo “Gender differences in anxiety and perceived stress during the Covid-19 pandemic among Brazilian adolescents from impoverished communities” publicado no renomado periódico científico PLOS Mental Health. Financiado pela Fapesp, o estudo analisou os impactos da pandemia na saúde mental de adolescentes, meninas e meninos, de uma comunidade vulnerável da Zona Leste de São Paulo. 

Trata-se de uma parceria com a Global Early Adolescent Study (GEAS), da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health. O GEAS é uma investigação que busca compreender como a socialização de gênero no início da adolescência ocorre ao redor do mundo e como ela molda a saúde e o bem-estar dos indivíduos e suas comunidades. No Brasil, o estudo foi coordenado por pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública e da Escola de Enfermagem da USP e buscou entender como o gênero influenciou no estresse e na ansiedade observados durante a pandemia de Covid-19. 

Foram entrevistados cerca de 400 jovens de 10 a 14 anos na comunidade do Itaim Paulista – com predominância de pessoas negras e estudantes de escolas públicas. Foram contemplados diversos aspectos da vida de um adolescente comum no período da pandemia, como as relações familiares durante o isolamento social, situação financeira, a qualidade dos estudos e o uso das mídias digitais para socialização e entretenimento. Cada um desses elementos é um fator importante para o desenvolvimento de um jovem, mas alguns deles chamam a atenção pela forma que impactaram os resultados do estudo. 

A presença nas redes sociais, por exemplo, apresentou um padrão peculiar: aqueles que relataram usar os meios digitais para manter contato com amigos durante o isolamento, como as redes sociais, jogos online ou outras plataformas eram mais propensos a apresentar níveis moderados a severos de ansiedade. 

Outra tendência observada foi a predominância de sinais de ansiedade e estresse entre as meninas. Apenas um quarto do grupo entrevistado revelou ter ansiedade severa, mas tal parte era composta maioritariamente por meninas. Segundo Nicolas, há algumas hipóteses para explicar o padrão observado, uma delas é “porque as meninas realmente têm maior susceptibilidade a serem afetadas devido ao machismo estrutural que vigora na sociedade brasileira”. Para o pesquisador, “elas sofrem mais com encargos domésticos e com a impossibilidade de sair, especialmente durante a pandemia, quando ficam mais reclusas”. “Outra possibilidade é que os meninos são socializados desde sempre a reprimir seus sentimentos e emoções”, disse o pesquisador. 

Os resultados evidenciam como as desigualdades de gênero estruturam o sofrimento psíquico e, dessa forma, crises sanitárias não podem ser estudadas como fenômenos homogêneos – estão sujeitas a grandes variações, de acordo com marcadores sociais. O estudo reforça a importância de políticas públicas voltadas à proteção de adolescentes em futuras crises. 

Clique aqui para ler o artigo completo na revista PLOS Mental Health.

 

A pesquisa contou com apoio do Programa Unificado de Bolsas da USP (2023), vinculado ao projeto GEAS-Brasil (FAPESP, processo nº 2017/23177-4). A pesquisa atual é financiada pela FAPESP (processo nº 2024/15093-9), que também viabilizou a elaboração do artigo.