A  |  A+ |  A-
Exclusão, sofrimento e invisibilidade social dos imigrantes Haitianos em São Paulo é tema de pesquisa na FSP USP

Foto: Marcelus – ASCOM/FSP/USP.


 

Registrar como os imigrantes haitianos se relacionam com as características da Capital paulista e da cultura nacional, enfrentando toda ordem de dificuldades e sofrimento social que uma trajetória sem planejamento ou estudo pode oferecer a seus protagonistas é o objetivo da Tese de Doutorado “Haitianos em São Paulo – exclusão, invisibilidade social e sofrimento Social“, de autoria do sociólogo José Ailton Rodrigues dos Santos.

A tese foi defendida no último dia 21 de setembro na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, sob orientação do Prof. Dr. Rubens de Camargo Ferreira Adorno. O estudo teve financiamento da CAPES. O autor acompanha a trajetória da imigração haitiana para São Paulo, desde 2004, quando o Exército Brasileiro foi para o Haiti, atendendo aos apelos da ONU.

Nestes 14 anos, Dr. Ailton Santos vem acompanhando situações de sofrimento e exclusão pelas quais esses imigrantes têm passado em sua trajetória desde Porto Príncipe, Capital do Haiti, até a Capital paulista.

Banca de Defesa (Foto: Marcelus – ASCOM/FSP/USP.)

Na condição de ativista negro e militante dos Direitos Humanos, trilhou o caminho de uma tese acadêmica para descrever a trajetória de mais de 80 mil haitianos vindos para o Brasil, e suas dificuldades, bem como se propões a contribuir com a elaboração de novas diretrizes políticas, onde o nosso país possa honrar com dignidade, sua proposta humanitária de acolhimento a esses e outros imigrantes.

“O Brasil abriu suas fronteiras para os haitianos de forma não planejada e ao longo desses anos, graças a ações políticas dos ativistas locais, os primeiros passos em relação à Cidadania da pessoa imigrante já foram dados.  O mundo vive uma condição ímpar de migração, onde a ONU estima que sejam mais de 65 milhões de pessoas nessas condições. E sabemos que esse número pode ser muito maior”, reflete Dr. Ailton.

“As fronteiras do Brasil, antes mesmo do país ter resolvido as demandas humanitárias em relação aos haitianos, e anteriormente, aos bolivianos, por exemplo, hoje já enfrentam nova onda migratória proveniente da Venezuela. Temos notícias de que em Roraima, há uma situação muito complexa de risco social com a chegada de cada vez mais venezuelanos, inclusive uma tribo indígena, que enfrenta toda a sorte de risco social e sem o lastro legal das instituições brasileiras, que supostamente estariam no papel do “acolhimento” humanitário”, denuncia ainda o pesquisador.

Enquanto o Brasil e o mundo assistem a uma das maiores ondas migratórias da História, após a 2ª. Guerra, a maior metrópole da América Latina tem recebido esses migrantes negros há alguns anos, que não falam o idioma local e que se somam às mazelas sociais da Metrópole, com resposta imediata de altas cargas de racismo e xenofobia.

Neste sentido a pesquisa questiona se a maior metrópole do Brasil tem correspondido às expectativas desses imigrantes a partir do olhar deles. Para responder a essas indagações este trabalho apresenta uma revisão de algumas das principais abordagens teóricas sobre migração e sofrimento social. Para além dessas abordagens e para realizar essa pesquisa, Dr. Ailton Santos adota uma metodologia lastreada na etnografia, que humaniza o trabalho científico a partir de relatos reais de personagens que compõem este cenário, além de conceituações teóricas de outros pesquisadores.

Em certos momentos da pesquisa e para melhor compreender o dia a dia da vida dos imigrantes, o pesquisador se colocou na situação dos mesmos, passando noites em pensões ocupadas tradicionalmente por esse público, dormiu na rua para fazer companhia a um haitiano que não tinha mais a quem recorrer, visitou inúmeras vezes o Baixo Glicério (região central a Capital Paulista), Missão Paz (entidade que acolhe imigrantes), para minimante,  sentir na “pele”, o que muitos sentem todos os dias desde que chegam à cidade de São Paulo.

Dr. Ailton fez uma revisão de literatura sobre a temática e que o levou a seguir um plano de execução e a elaboração dos instrumentos para serem utilizados na coleta de dados (levantamento de dados secundários junto aos órgãos de Governo/Secretárias/Coordenadorias, ONGS para a análise documental. Fez ainda entrevistas com professores, pesquisadores e ativistas que ajudaram muito no entendimento desse trabalho.

Os resultados encontrados descrevem com detalhes o sofrimento deste recorte de imigrantes, mensurando elevado grau de exclusão, invisibilidade e principalmente grande “sofrimento social”. Homens em idade produtiva, sãos e motivados são levados a uma situação de privações de toda ordem, de amargura, revolta e muitos questionamentos sobre a realidade brasileira e sua constituição racial e social. Considerando tais resultados, o pesquisador, concluiu que ainda precisamos repensar nossas políticas públicas e criar mais instrumentos de acolhimentos na sociedade – público e privado – desses e outros imigrantes que chegam diariamente ao município de São Paulo.

  • Veja aqui, as fotos da defesa:

Texto: ASCOM/FSP/USP com informações do autor.