Dois grandes estudos publicados pelo The British Medical Journal ontem (29) encontraram associações entre o consumo de alimentos ultraprocessados e o risco de doenças cardiovasculares e morte.
Segundo o Guia Alimentar para a População Brasileira, “os alimentos ultraprocessados incluem vários tipos de guloseimas, bebidas adoçadas com açúcar ou adoçantes artificiais, pós para refrescos, embutidos e outros produtos derivados de carne e gordura animal, produtos congelados prontos para aquecer, […] salgadinhos ‘de pacote’, cereais matinais, barras de cereal, bebidas energéticas, entre muitos outros.”
No primeiro estudo, da Universidade de Paris, publicado pela The BMJ os pesquisadores avaliaram potenciais associações entre alimentos ultraprocessados e o risco de doenças cardiovasculares e cerebrovasculares (relacionadas ao fornecimento de sangue para o cérebro). O estudo foi baseado em aproximadamente 105 mil adultos, com média de idade de 43 anos, que responderam questionários dietéticos de 24h para mensurar tudo que eles ingeriram nesse período. Os resultados mostraram que um aumento de 10% de ultraprocessados na dieta estava associado a taxas mais elevadas de doenças cardiovasculares, coronárias e cerebrovasculares.
No segundo estudo, pesquisadores da Universidade de Navarra, na Espanha, avaliaram possíveis associações entre a ingestão de alimentos ultraprocessados e o risco de morte (de qualquer causa). Para isso, eles avaliaram quase 20 mil pessoas com média de idade de 38 anos que também responderam a questionários. Os resultados mostraram que o alto consumo de ultraprocessados estava associado a um aumento de 62% do risco de mortalidade se comparado com o baixo consumo.
Ambos os estudos são observacionais, de modo que não é possível estabelecer uma relação de causa e existe a possibilidade de alguns dos riscos observados serem oriundos de variáveis não consideradas. Para os pesquisadores, estudos futuros devem explorar a associação entre alimentos ultraprocessados e danos à saúde em diferentes populações ao redor do mundo. De todo modo, eles pedem por políticas que privilegiem o consumo de alimentos frescos ou minimamente processados em vez dos ultraprocessados.
Para o Prof. Carlos Augusto Monteiro, docente do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP, há vários mecanismos que podem explicar a associação direta entre o consumo de ultraprocessados e o risco de doenças cardiovasculares, como os aditivos usados na fabricação desses alimentos – adoçantes artificiais e mesmo contaminantes sintéticos liberados pelo material usado para acondicionar esses produtos. Para Monteiro, os resultados dos estudos indicam que o melhor a fazer no caso desses alimentos, “é evitar seu consumo”. Quanto ao consumo exclusivo de alimentos in natura ou minimamente processados, o docente faz uma ressalva:
Padrões alimentares saudáveis em todo o mundo têm como base uma grande variedade de alimentos in natura e minimamente processados preparados com ingredientes culinários processados, como óleos e azeites, e complementados com alimentos processados, como pães e queijos.
Estudos mencionados:
Primeiro estudo: Ultra-processed food intake and risk of cardiovascular disease: prospective cohort study (NutriNet-Santé). Disponível em: https://www.bmj.com/content/365/bmj.l1451
Segundo estudo: Association between consumption of ultra-processed foods and all cause mortality: SUN prospective cohort study. Disponível em: https://www.bmj.com/content/365/bmj.l1949
Texto: Rafaella Carrilho | Com informações do Media Relations – BMJ