Em artigo de discussão recém-publicado na revista STOTEN (Science of The Total Environment, Volume 990), o professor Rafael Buralli, do Departamento de Política, Gestão e Saúde da FSP-USP, lidera um time internacional de autores em um importante e urgente chamado à ação, envolvendo a vigilância e a proteção à saúde de crianças expostas a agrotóxicos em áreas rurais de países com menor renda.
Em coautoria com pesquisadores dos Estados Unidos, México, Chile, Costa Rica, Austrália e Malásia, o artigo discute como as crianças são afetadas pelos agrotóxicos, incluindo através de exposições ambientais, para-ocupacionais e ocupacionais. Apesar de frequentes, essas exposições e seus riscos à saúde infantil são comumente ignoradas em avaliações clínicas, vigilância, regulação e políticas públicas, ressaltam os autores.
“Nosso modelo agrícola baseado no uso intensivo de agrotóxicos expõe milhares de crianças que vivem em áreas rurais todos os dias a uma carga enorme de substâncias químicas perigosas à saúde. E isso ocorre tanto no agronegócio produzindo em larga escala, como também na agricultura familiar, onde os ambientes de trabalho e moradia se confundem, aumentando a exposição entre crianças, inclusive antes do nascimento”, diz Buralli.
O artigo traz a história de Zeca, uma criança que vive na zona rural do Brasil com crises de asma que pioram devido à aplicação de agrotóxicos perto de sua casa, ilustrando como a questão é crítica e profundamente enraizada na vida cotidiana de muitas comunidades agrícolas.
Esses padrões refletem injustiças sociais e ambientais enraizadas, que afetam desproporcionalmente as crianças rurais em países de menor renda. O enfrentamento deste problema exige “respostas coordenadas e sistêmicas que envolvam regulamentação mais rigorosa, vigilância e gestão em saúde aprimoradas, apoio a práticas agrícolas mais seguras e sustentáveis e a inclusão das comunidades rurais nos processos de tomada de decisão. A proteção de crianças contra a exposição prejudicial a pesticidas deve ser reconhecida como uma prioridade de saúde pública e uma questão de justiça social e ambiental”, defendem os autores.
Confira o artigo na íntegra (disponível gratuitamente por 50 dias):
Children’s environmental and occupational exposures to pesticides in low- and middle-income countries rural areas – an elephant in the room
