Resiliência. Palavra que se tornou lugar comum durante a pandemia mas que, como conceito, nada tem de comum. Ao olhar em perspectiva, talvez essa seja a melhor palavra para ilustrar a história do Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Souza, registrada no livro comemorativo de seu centenário por usuários, profissionais, pesquisadores, estudantes e gestores da instituição.
O projeto que transformaria a forma de pensar saúde no Brasil nasceu com o farmacêutico e médico sanitarista Geraldo Horácio de Paula Souza (1889-1951), inspirado em modelos de centros de saúde que conheceu numa viagem aos Estados Unidos.
O embrião de um centro de saúde -com um formato inovador para a época, integrando em um só espaço serviços médicos, de enfermagem e de assistência sanitária, além de educação em saúde, pesquisa e ensino- funcionou experimentalmente nos anos de 1922 e 1923 na rua Brigadeiro Tobias, nº 45, no Centro de São Paulo, sede do então Instituto de Higiene (inaugurado em 1918), antigo nome da Faculdade de Saúde Pública da USP.
Somente a partir de 1925 foi possível materializar o sonho de Paula Souza, ano em que o referido mestre instituiu a Reforma do Serviço Sanitário de São Paulo e apresentou ao Brasil um novo formato de assistência. Com isto, o serviço idealizado passou a funcionar nesse mesmo ano, no Instituto de Higiene.
Mas como um um recém-nascido em luta pela vida, o serviço teve que fechar as portas por um tempo, por falta de local apropriado. Foi reaberto em 1933, já no edifício da avenida Dr. Arnaldo, sob a direção de Paula Souza. Funcionava no subsolo e na ala esquerda do então novo prédio da Faculdade de Saúde Pública, no bairro de Pinheiros, em São Paulo.
O desafio da gestão na construção do SUS
Entre muitos percalços, um salto no tempo nos leva ao ano de 2015, momento crítico e ano da comemoração dos 90 anos do CSEGPS. Havia uma grave crise institucional, com o quadro de recursos humanos severamente reduzido e a equipe técnica extremamente fragilizada.
A virada de chave veio com a assinatura do convênio entre a FSP-USP e a Secretaria Municipal de Saúde (SMS-SP), em agosto de 2016, o que representou um marco decisivo na história recente do CSEGPS. A parceria que formalizou a incorporação da unidade à Rede Pública Municipal de Saúde também trouxe novas responsabilidades e adaptações, bem como a tão aguardada contratação de novos profissionais.
Com a “reordenação e revitalização das diferentes linhas de cuidado tradicionalmente instituídas no CSEGPS, ampliou-se o acesso da população à rede assistencial municipal regulada, bem como às bases de dados e informações da SMS-SP”, conta a atual diretora Sônia Brolio, no artigo que trata dos desafios da gestão na construção do SUS, em capítulo assinado com a vice-diretora Ana Lúcia Lumazini de Moraes.
O texto de fácil leitura emociona ao relatar os desafios enfrentados na última década, em especial as estratégias na reorganização do serviço frente à pandemia. As fissuras e fragilidades da nossa sociedade revelaram um abismo na saúde pública. Por outro lado, a proximidade da nova gestão recém-empossada com sua equipe “facilitou a implementação de uma gestão participativa, capaz de responder, de forma ágil e sensível, às incertezas daquele momento”, traz o texto.
Segundo as autoras, o momento demonstrou que sistemas excessivamente centralizados na alta complexidade não são sustentáveis em tempos de crise, pois “são como castelos de areia quando as marés da emergência sobem”. A resiliência, mais do que uma palavra técnica, passou a significar uma rede viva: uma atenção primária fortalecida, conectada às comunidades, capaz de ouvir, prevenir, orientar e agir ”.
Ensino e pesquisa
O capítulo sobre “O projeto formativo do CSEGPS: Reflexões sobre o ensino na formação em saúde” traz a assinatura de duas profissionais: Samantha Caesar de Andrade e Luciana Xavier Junqueira. Elas abordam as estratégias pedagógicas, a gestão dos estágios e o acompanhamento de discentes, entre outros tópicos relativos ao projeto formativo de excelência que mantém o Centro de Saúde até hoje como referência no ensino e na formação profissional.
A formação em saúde já resultou em inúmeros trabalhos de Iniciação Científica, extensão universitária, TCC e de Residência multiprofissional, além de mestrados e doutorados, e as autoras trazem alguns exemplos de casos que resultaram no desenvolvimento de tecnologias inovadoras de cuidado.
Já a nutricionista Viviane Laudelino Vieira assina o capítulo sobre “A Pesquisa em saúde no CSEGPS: possibilidades e desafios junto à prática assistencial”, em que traça um panorama da produção científica no serviço desde a instituição da Comissão de Pesquisa em 2012, pela então diretora do CSEGPS, professora Patrícia Rondó.
Viviane enumera 88 pesquisas desde então, de diferentes áreas e níveis de formação, incluindo temáticas sobre a atuação da Atenção Primária à Saúde (APS), a saúde da pessoa idosa, saúde da mulher, nutrição, saúde da criança, saúde mental, serviço social, população em situação de rua, vacinação, doenças transmissíveis e outras.
A atuação das Práticas Integrativas Complementares em Saúde, as chamadas PICS, amplamente praticadas no Centro de Saúde e reconhecidas no âmbito assistencial, “também tem despertado interesse no campo científico, especialmente pela necessidade de ampliação das evidências na área”, avalia a nutricionista.
Muito se conquistou, mas nem por isso os desafios deixam de preocupar. As profissionais mostram que a própria Universidade precisa fortalecer institucionalmente a presença do Centro de Saúde, incorporando o serviço nos projetos político pedagógicos dos cursos da área da saúde. Além disso, medidas outras são urgentes, como o reconhecimento do tempo dedicado à pesquisa na carga de trabalho dos profissionais, que também sofrem pela sobrecarga de atribuições e com o exíguo espaço físico, aponta.
Passado e futuro
Antes de mirar nas perspectivas futuras, um dos capítulos recupera a rica história da instituição, nas palavras da historiadora Mariana Dolci, que em seu doutorado defendido em 2019 pela FSP-USP contou em detalhes essa trajetória. O trabalho intitula-se “Entre a ciência e a política: ensino, atendimento e pesquisa no Instituto de Higiene de São Paulo (1916-1951)”, disponível na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP.
Por último, mas não menos importante, usuários e usuárias, bolsistas, ex-funcionários e funcionárias, ex-gestores e ex-gestoras prestam suas homenagens nos capítulos finais, discorrendo sobre sua experiência e o que espera para o futuro desse serviço que germinou as bases para o Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil.
Os capítulos finais trazem a nostalgia da memória em fotos de época. São registros das populações atendidas e a gama de serviços oferecidos para sanar as doenças infecciosas que grassavam num país agroexportador: varíola, ancilostomíase (verminose), febre tifóide, tracoma, malária e febre amarela, além de tuberculose e hanseníase, para as quais o serviço já era referência.
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Imagem na home: Reprodução
Livro
Cem Anos do Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Souza (2025).
Organização e revisão: Laura Iumi Nobre Ota e Mariana de Carvalho Dolci
Leia a obra na íntegra aqui.