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“Precisamos de políticas globais para enfrentar os ultraprocessados e a epidemia de obesidade”

Professor Carlos Monteiro em aula remota no curso de difusão científica para comunicadores e jornalistas. Imagem: Reprodução.

Informação nutricional, escolhas alimentares e saúde pública foi o tema tratado pelo professor Carlos Augusto Monteiro, Emérito do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP, em um dos seminários do curso “Divulgação científica para comunicadores e jornalistas”, oferecido a centenas de profissionais de todo o Brasil, incluindo os que atuam com comunicação na Universidade de São Paulo. O projeto finalizou sua primeira edição sob a coordenação da professora Maria Clotilde Perez Rodrigues, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. A playlist das aulas, ministradas remotamente, pode ser conferida aqui.

Epidemiologista e cientista da nutrição, Monteiro passeou por temas complexos como um maestro profundamente mergulhado em seu repertório. Trouxe os conceitos mais atuais da alimentação saudável, desmistificou crenças – por exemplo, a exaltação da proteína e a desinformação envolvida nos modismos nutricionais -, e deu grande destaque ao papel da comunicação social e das políticas públicas como ferramentas para mudar a cultura alimentar no mundo e, principalmente, frear a epidemia global de obesidade.

E deu um alerta: “Precisamos de uma resposta global para enfrentar o lobby da indústria de ultraprocessados. As evidências dos impactos à saúde e ao ambiente estão aí. E um novo relatório será publicado na The Lancet mostrando isso”, disse, referindo-se a uma coletânea de artigos assinados por cientistas de diversos países, que será publicada no dia 18 de novembro na renomada revista The Lancet.

Um dos cientistas mais citados mundialmente em diversos rankings e eleito pelo jornal The Washington Post como uma das 50 personalidades mais influentes em 2025, Monteiro criou em 2009 o conceito que mudou o paradigma da ciência da alimentação: o de ultraprocessados.

Trata-se de alimentos formulados a partir de ingredientes baratos como gorduras hidrogenadas, isolados proteicos ou xarope de glicose/frutose e de aditivos cosméticos (corantes, adoçantes artificiais e emulsificantes), que alteram o gosto, a cor e a consistência, tornando-os altamente palatáveis e irresistíveis.

“Eles enganam a homeostase, que regula o balanceamento energético, e a pessoa come mais do que devia, levando à obesidade. Hoje há mais de mil estudos associando ultraprocessados à diabetes, hipertensão, problemas gastro intestinais, alguns tipos de câncer, doenças respiratórias, do fígado, depressão, Parkinson, doenças mentais e mortalidade prematura”, enumerou.

“A partir da 2ª Guerra Mundial, a indústria teve um papel importante ao submeter alimentos in natura a processamentos mínimos, por exemplo, o melhoramento de grãos, a pasteurização do leite, técnicas de congelamento e a fermentação. Mas com o desenvolvimento da tecnologia de alimentos, a indústria passou a criar produtos de muito baixo custo e grande lucratividade, e isso virou um modelo de negócio”, disse o professor.

Nesse nicho estão 10 corporações transnacionais que controlam esse mercado no mundo, com uma receita diária astronômica, afirmou. “Lançam mão de estratégias para evitar qualquer tipo de regulação que possa informar que esses produtos não são adequados. Nosso corpo não está preparado para eles. Então criam dificuldades para o acesso às informações. Semeiam dúvidas, assim como fez a indústria do cigarro ao ser pressionada por uma regulação”, afirmou.

Outra estratégia citada é a chamada “revolving door”, usada para descrever o movimento de profissionais que saem da iniciativa privada (como executivos de uma indústria) e vão trabalhar em órgãos públicos que regulam o mesmo setor — e vice-versa.

“Daí a importância da comunicação responsável. Toda a imprensa inglesa tem coberto sistematicamente as pesquisas sobre ultraprocessados e a população lá está informada em função da mídia, especificamente”, ressalta.

Afirmou ainda que grande parte da população europeia se preocupa com o consumo desses produtos. “Mas o abastecimento alimentar está totalmente comprometido nesses países e o indivíduo sozinho não consegue mudar hábitos. É preciso uma resposta global e urgente. Precisamos pressionar as autoridades para o acesso às informações corretas e o incentivo ao consumo de alimentos naturais”, disse.

Imposto seletivo, política fiscal, forte empenho na regulação da publicidade, criação de mais sacolões de frutas e hortaliças e valorização da habilidade culinária na cultura educacional são algumas das ações que o Brasil deveria incluir em sua agenda para promover a alimentação saudável e sustentável.

Citou a inclusão do Guia Alimentar para a População Brasileira no currículo das escolas, além da retirada de doces e alimentos ultraprocessados dos caixas e locais de fácil acesso nos supermercados. “O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) é uma política importante e vem sendo copiada no mundo inteiro, mas deveria haver uma ação muito maior em diversas frentes”, avalia.

 

Créditos
Matéria produzida por Sylvia Miguel no âmbito do TCC do curso “Divulgação científica para comunicadores e jornalistas” (ECA-USP), com base na palestra de Carlos Monteiro, de 22/09/2025.