O aquecimento global deixou de ser gráfico para virar experiência cotidiana. E, com a escalada de eventos climáticos extremos, a saúde mental entrou de vez no debate público. “Estamos presenciando um aumento dos eventos meteorológicos extremos”, afirma o físico Paulo Artaxo. Incêndios florestais, ondas de calor e enchentes não só multiplicam perdas materiais: afetam o corpo e a mente, intensificando estresse e ansiedade. “Os mais vulneráveis são os que mais sofrem as consequências das mudanças climáticas”, destaca, alertando: “Se a gente permitir que o planeta se esquente 3 °C, no caso do Brasil o aumento de temperatura seria de 4 °C a 4,5 °C e, na região ártica, da ordem de 6,5 °C a 7 °C e essa é a trajetória que estamos trilhando hoje”.
Essa situação climática tem uma tradução psíquica, e a literatura especializada já descreve que as mudanças do clima induzem estresse, depressão e ansiedade; fragilizam vínculos comunitários; e se associam a aumento de agressividade e violência.
O psicanalista Christian Dunker localiza essas reações em uma crise psíquica contemporânea cuja genealogia passa por transformações no trabalho e no consumo, pela informatização e pela corrosão de laços. O resultado, segundo ele, é uma sociedade do espetáculo e do cansaço, marcada por precarização, “narcisismo” e “ambiguidade”, fatores que potencializam o sofrimento quando o ambiente se torna instável. Dunker mostra como mudam as formas de sofrer: de conflitos externos à busca de sentido e ao esgotamento, agravados na pandemia.
Para fazer a ponte entre a crise ambiental e a experiência individual, a professora Andréia de Conto Garbin, psicóloga e docente do Departamento de Saúde Ambiental da FSP-USP, explica que o termo ecoansiedade tem sido usado para nomear “apreensões frente às mudanças climáticas”, mas alerta contra reducionismos: “por outro lado relaciona à ansiedade ao clima reduzindo à análise dos fenômenos que geram as mudanças e os desastres”. Segundo ela, não se trata apenas de um rótulo, e sim de reconhecer um espectro de respostas psíquicas diante de transformações ambientais aceleradas. “A Organização Mundial da Saúde (OMS) já reconheceu a ansiedade climática como uma questão de saúde pública, destacando a necessidade de abordar suas implicações psicológicas”, afirma.
Quando chuvas torrenciais alagam bairros periféricos, ou secas prolongadas afetam territórios indígenas e a produção agrícola, não estão em jogo apenas perdas materiais: há lutos ambientais, sensação de deslocamento e de perda de controle. Pesquisas registram aumento de emergências em saúde mental, sentimentos de impotência e rupturas de identidade quando o lugar significativo, como a casa, o rio ou o trabalho, é destruído. Andréia destaca a importância de nomear esse sofrimento: “Reconhecer os impactos psicológicos que as mudanças produzem é importante, pois acolhe diversas manifestações que a população de um território ou de modo geral manifestam.”
E como lidar? Do ponto de vista da saúde pública, Andréia lembra que “as unidades básicas de saúde são a porta de entrada para cuidado e atenção aos usuários”. Dali, as demandas específicas, sobretudo nas áreas de saúde mental e vigilância ambiental, orientam intervenções que combinam clínica ampliada, escuta e território. “São ofertadas intervenções de cuidado, como, por exemplo, grupos para refletir e problematizar coletivamente sobre as mudanças climáticas ou ambientais.” O enfoque territorial é central: “Intervenções territoriais e comunitárias no âmbito da saúde mental consideram os contextos socioeconômicos, ambientais, de saúde, bem como as tradições e costumes locais das comunidades.” As modalidades são múltiplas e adaptáveis: “rodas de conversa, oficinas, projetos coletivos, movimentos comunitários, acolhimentos, etc.”
Diante da COP30 em Belém, o Brasil tem a oportunidade de alinhar metas climáticas a estratégias de cuidado psíquico e justiça social, reconhecendo que o sofrimento não é “exceção clínica”, mas consequência previsível de um planeta em aquecimento. Para Dunker, a disputa central é por sentido e laço social; para Artaxo, por ciência e decisão coletiva; e, para Andréia, por uma saúde pública que integre vigilância ambiental, atenção psicossocial e ações territoriais. A ciência não precisa mais demonstrar que o clima mudou, pois as pessoas percebem. Cabe transformar essa percepção em projeto comum, para que o futuro não seja apenas uma fonte de medo, mas de ação compartilhada.
________________________________________
Créditos e base das declarações
Matéria produzida por Tiago Brito Alonso no âmbito do TCC do curso “Divulgação científica para comunicadores e jornalistas” (ECA-USP), com base nas palestras de Paulo Artaxo “As mudanças climáticas e a construção de uma sociedade sustentável”, realizada em 08/08/2025 e de Christian Dunker “Crise psíquica na sociedade contemporânea”, de 20/10/2025.