Dois artigos publicados recentemente por pesquisadoras(es) da Faculdade de Saúde Pública (FSP-USP) e Faculdade de Medicina (FMUSP), em colaboração com pesquisadoras dos Estados Unidos e da Dinamarca, colocam em evidência debates centrais da saúde pública contemporânea: o sofrimento social causado pelo estigma do peso e os impactos sociais do uso crescente de medicamentos para emagrecimento, como os agonistas do receptor GLP-1.
“What is the felt experience of weight stigma in Latin America and the Caribbean? A systematic narrative review”, publicado na The Lancet Regional Health – Americas, apresenta a primeira revisão sistemática sobre a experiência vivida do estigma do peso na América Latina e no Caribe.
A partir da análise de 46 estudos, o trabalho demonstra que o estigma do peso é amplamente presente na região e produz sofrimento emocional profundo, marcado por dinâmicas familiares, bullying, exclusão social e processos contínuos de desvalorização moral.
“Mais do que identificar a existência do estigma, o estudo mostra quais aspectos da vida social mais importam para que ele seja vivido como sofrimento, destacando seu caráter relacional, cotidiano e generificado”, conta a autora principal do artigo, professora Fernanda Scagliusi, do Departamento de Nutrição da FSP-USP.
O artigo propõe um modelo conceitual ancorado na realidade latino-americana, que desloca abordagens importadas do Norte Global e enfatiza o estigma do peso como uma questão estrutural, moral e de justiça social.
“Nossos dados mostram que o sofrimento associado ao peso não é um efeito colateral, mas uma experiência social profunda, produzida em relações próximas e atravessada por desigualdades históricas e culturais”, afirma a professora.
Do sofrimento social ao avanço dos GLP-1: perguntas urgentes para a saúde pública
Em decorrência do profundo sofrimento causado pela estigmatização do peso e de todas as pressões sociais associadas aos ideais corporais, os cientistas observaram um rápido avanço global de medicamentos agonistas do receptor GLP-1, como a semaglutida, tema do segundo artigo, publicado na PLOS Global Public Health.
Com base em pesquisas qualitativas realizadas em diversos países, incluindo o Brasil, o estudo mostra que o uso dos GLP-1 vai muito além de uma intervenção clínica. Intitulado “Beyond the prescription: Global observations on the social implications of GLP-1 receptor agonists for weight loss”, o trabalho tem como ponto de partida o acúmulo das ciências sociais sobre peso, estigma e corpos.
Com isso, questiona o que acontece quando tecnologias biomédicas para emagrecimento se expandem em sociedades já marcadas por ansiedade corporal, vigilância moral e desigualdades sociais.
Os pesquisadores evidenciam questões que deveriam orientar o debate público e as políticas de saúde: a demanda impulsionada pela ansiedade em relação ao peso, o acesso desigual aos medicamentos, a disposição das pessoas em suportar efeitos adversos e custos elevados, e o risco de que essas tecnologias não reduzam — e até intensifiquem — o estigma do peso.
“Os medicamentos GLP-1 não atuam em um vazio social. Eles entram em contextos já marcados por sofrimento, desigualdade e estigmatização — e isso precisa ser considerado nas políticas de saúde”, avalia a professora Scagliusi, uma das autoras do artigo liderado por Sissel Due Jensenm, da Dinamarca.
Ao articular os dois trabalhos, a agenda de pesquisa aponta para um alerta central: nenhuma solução farmacológica pode ser pensada isoladamente dos processos sociais que produzem sofrimento em torno do corpo e do peso.
“Se não enfrentarmos o estigma e as desigualdades que estruturam a relação com o peso, corremos o risco de medicalizar um problema que é, antes de tudo, social”, enfatiza a professora.
A obesidade é um dos maiores desafios da saúde mundial. Em suas diretrizes recém publicadas sobre o uso de medicamentos para emagrecimento, a Organização Mundial da Saúde (OMS) enfatiza que apenas a medicação não reverterá a tendência da obesidade e nem das doenças crônicas associadas, como as cardiovasculares, diabetes tipo 2 e determinados tipos de câncer. Além de sugerir a combinação dessas terapias com uma dieta saudável e atividade física, a organização destaca a importância de criar ambientes mais saudáveis por meio de políticas sólidas, a fim de promover a saúde e prevenir a obesidade.
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