Além dos fatores clássicos de risco para AVC e infarto — como hipertensão, diabetes e colesterol alto — novos elementos se somam ao risco de mortalidade após o Acidente Vascular Cerebral (AVC). Depressão e incapacidade funcional aumentam significativamente o risco de morte após o evento, afirma Alessandra Carvalho Goulart, Professora da FSP-USP, no podcast Saúde É Pública.
A hipertensão se mantém como o principal fator de risco para ambas as doenças, enquanto o diabetes e o colesterol elevado intensificam as chances de infarto, maior causa de morte no Brasil.
Segundo Goulart, pacientes com depressão maior pós-AVC têm um risco de mortalidade quase cinco vezes maior no primeiro ano. Aqueles com incapacidade funcional grave pós-evento têm três vezes mais chance de morrer, especialmente nos dois anos iniciais; ou seja, são os casos em que os indivíduos permanecem sem condições de realizar atividades básicas do dia-a-dia como, por exemplo, comer sozinhos, se locomoverem dentro de casa, ou fazerem suas necessidades fisiológicas.
Além da mortalidade, a professora também avaliou a influência da localização do AVC no cérebro em relação ao risco de prejuízo cognitivo. Os estudos conduzidos pela cientista revelam que o AVC no hemisfério esquerdo do cérebro eleva o risco de prejuízo cognitivo em até três vezes, em comparação ao lado direito.
Goulart enfatiza que essas complicações podem ser minimizadas com reabilitação adequada, como fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia.
Muitos estudos que ela conduziu ao longo de anos também apontam o impacto do tratamento pós-evento cardiovascular. Por exemplo, 20% das vítimas de AVC têm a fibrilação atrial (tipo de arritmia cardíaca) como principal causa do AVC isquêmico do tipo embólico, complicação evitável com o uso de um anticoagulante, medicamento distribuído sem custo pelo SUS.
“Observamos que grande parte dos pacientes não se tratava adequadamente. No acompanhamento de uma das coortes, conseguimos verificar que a pequena parcela de pacientes em uso do anticoagulante por pelo menos seis meses pós-AVC teve uma redução de pelo menos 90% na mortalidade, num seguimento de até 12 anos. Isso é um dado novo, em termos de magnitude de impacto de uma medida de prevenção secundária, ou seja, o uso do anticoagulante em pacientes com fibrilação e já acometidos por um AVC isquêmico. Esses dados chamaram muito a atenção da comunidade científica”, afirma a professora.
Alessandra é uma das recém-contratadas pelo Departamento de Epidemiologia e chega com novidades importantes, como a criação do Laboratório de Estudos Longitudinais (Label) na FSP-USP . O laboratório já desperta grande interesse dos estudantes porque está iniciando a coleta de dados do subestudo ELSA-Cérebro, ligado ao ELSA-Brasil -também assunto da entrevista.
A professora também aponta a falta de estudos sobre a saúde cardio e cerebrovascular de pessoas trans e anuncia que esta será uma das novas linhas de estudo de seu laboratório.
Alessandra é uma das cientistas listadas entre os 2% dos cientistas mais influentes do mundo, de acordo com o ranking de Stanford divulgado no final de setembro. Além disso, acaba de receber o Prêmio CAPES Elsevier 2024 Mulheres na Ciência, na categoria Pesquisadora com maior impacto na área de Ciências Médicas da Região Sudeste.
Ouça a entrevista na íntegra em sua plataforma de áudio favorita, ou pelo canal da FSP-USP no Youtube.
Saúde É Pública – Episódio 76: AVC e infarto: o que a ciência já sabe
Com Alessandra Carvalho Goulart