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Crianças e jovens das periferias de São Paulo protagonizam estratégias de resistência durante a pandemia de Covid-19

Crianças e jovens de territórios periféricos de São Paulo demonstraram notável capacidade de adaptação e liderança durante a pandemia de Covid-19. Um estudo inédito da Faculdade de Saúde Pública da USP (FSP-USP) revelou que, diante da ausência de políticas públicas eficazes, eles criaram redes de solidariedade e soluções criativas que ajudaram a garantir a sobrevivência de suas comunidades. As experiências, analisadas em detalhes no livro “Adaptações de Crianças e Jovens à COVID-19 no Brasil: Repercussões para Educação, Alimentação e Lazer”, indicam que o protagonismo juvenil foi determinante para enfrentar a crise sanitária em áreas marcadas pela vulnerabilidade social.

A obra, publicada em português e inglês pelo Portal de Livros da USP, reúne resultados da pesquisa internacional PANEX-Youth, realizada entre 2022 e 2024. Foram ouvidas 32 organizações comunitárias da Grande São Paulo e 44 jovens de Heliópolis e Paraisópolis — as duas maiores favelas da capital paulista — com apoio local das entidades Pró Saber SP e UNAS Heliópolis e Região. O estudo documenta como, mesmo em um cenário de insegurança alimentar, restrições educacionais e limitações no lazer, essa juventude encontrou caminhos para resistir e transformar suas realidades, oferecendo lições valiosas sobre adaptabilidade em crises emergentes.

Protagonismo juvenil no enfrentamento às múltiplas crises

A pesquisa revelou que jovens das periferias se tornaram protagonistas das estratégias de resistência comunitária, atuando lado a lado com adultos que há décadas enfrentam a ausência de políticas públicas. “Os jovens foram os que mais se mobilizaram durante a pandemia para estar na linha de frente. Eles tinham aquele sentimento de que podiam ajudar porque o risco para eles era menor”, conta uma representante do Instituto Fazendinhando. Para Luciana Bizzotto, pós-doutoranda no projeto e uma das organizadoras do livro, “essa participação intergeracional foi fundamental não apenas para a sobrevivência das comunidades, mas também como proteção à saúde mental dos próprios jovens”.

A pandemia agravou desigualdades na educação. Com escolas fechadas por mais de 40 semanas, o ensino remoto expôs a falta de internet, casas cheias e um único celular para várias crianças. Ao mesmo tempo, a fome aumentou: em 2022, mais de 33 milhões de brasileiros estavam nessa situação. Sem apoio federal, comunidades se mobilizaram. No Jardim Colombo, em Paraisópolis, uma ação com 28 cestas básicas virou mais de 25 mil, distribuídas por 50 voluntários.

O lazer e a saúde mental também foram afetados. Com parques fechados, jovens ocuparam lajes, soltaram pipa e foram a bailes funk. O uso intenso de celulares criou desafios no retorno às aulas. Houve casos de depressão até em crianças de seis anos. Para enfrentar a crise, comunidades criaram acolhimento, parcerias com universidades e ações de autocuidado.

Lições para o futuro

A pesquisa, além de registrar os impactos da pandemia, buscou extrair lições para enfrentar crises futuras, em um contexto de múltiplas emergências interconectadas. O objetivo foi transformar aprendizados dolorosos da Covid-19 em estratégias de preparação e resposta. “A pandemia foi uma coisa horrível, morreram muitas pessoas. Mas eu sinto que formou uma nova geração de jovens, um pouco mais empática com os outros”, avalia um educador do projeto Geração Portela, em Paraisópolis. Sem romantizar a violência vivida, os pesquisadores defendem que essas experiências orientem políticas públicas e reforçam que “os jovens são reconhecidos como parte das soluções no enfrentamento das crises complexas atuais”, afirma o coordenador do estudo, Leandro Giatti, professor da FSP-USP.

O projeto PANEX-Youth

O PANEX-Youth é um projeto internacional que, entre 2022 e 2024, investigou como crianças e jovens se adaptaram à pandemia de Covid-19 no Brasil, África do Sul e Reino Unido, reunindo pesquisadores de cinco universidades e contando com financiamento de agências científicas dos três países. Utilizando a abordagem “nexo” — que analisa a interdependência entre alimentação, educação e lazer — e uma metodologia participativa, o estudo construiu conhecimento junto a jovens, comunidades e organizações sociais para documentar impactos e propor soluções que fortaleçam a resiliência diante de futuras emergências globais.

*texto adaptado

Para mais informações sobre o projeto, clique aqui.

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