O artigo “Evolution and spillover dynamics of yellow fever at the forest–urban interface in Brazil”, com participação da professora Dra. Tamara Nunes de Lima-Camara e da bióloga Dra. Marcia Bicudo, da Faculdade de Saúde Pública da USP (FSP-USP), em conjunto com outros pesquisadores, foi publicado em destaque na capa da nova edição da revista científica Nature Microbiology. O estudo investiga como o vírus da febre amarela (YFV) se espalha em áreas de encontro entre florestas e a cidade, analisando um caso de surto de febre amarela silvestre ocorrido entre 2017 e 2018, em um fragmento de Mata Atlântica na região metropolitana de São Paulo.
Para a pesquisa, foi realizado um monitoramento sistemático de mosquitos vetores no solo e em árvores, além da coleta e análise de primatas mortos, especialmente bugios. A escolha da espécie de primatas considerou o fato que os animais costumam morrer rapidamente após a infecção. Em seguida, foi realizada a extração de RNA viral de amostras de mosquitos e tecidos de primatas, permitindo que diferentes linhagens virais fossem identificadas, além de detectar possíveis coinfecções e analisar a diversidade genética do material viral. A próxima etapa consistiu na construção de árvores evolutivas do vírus, identificando clusters genéticos (grupos de vírus com origem em comum). Esse procedimento permitiu rastrear quantas vezes o infectante foi introduzido na área estudada e quais linhagens realmente se espalharam.
Na sequência, o artigo aplica uma modelagem epidemiológica, utilizando um modelo baseado em indivíduos. Nessa etapa da metodologia, é feita uma simulação que contém primatas, mosquitos e vírus, que irão interagir entre si como se fosse na natureza. Para isso, são necessários ajustes dos pesquisadores para que a simulação se aproxime da realidade. A metodologia foi importante para comprovar que a transmissão era intensa e que o surto poderia ser explicado por uma série de fatores.
O estudo aponta que das várias vezes em que o vírus foi introduzido na área estudada, apenas um cluster genético foi responsável pela maior parte dos casos, indicando que nem toda introdução gera um surto, uma vez que depende de condições ecológicas específicas. A contaminação em massa dos bugios levou à extinção da espécie em determinados locais, causando perda da biodiversidade e impacto no ecossistema. Os pesquisadores apontam ainda a temperatura como fator com influência direta na transmissão, levando em consideração a abundância de mosquitos vetores em temperaturas elevadas.
O artigo ressalta que o surto surge em características específicas, mas que é essencial monitorar primatas mortos, mosquitos e vírus para que contaminações em massa sejam detectadas antes da transmissão humana. Destaca também o risco elevado de infecção em áreas urbanizadas e com altas temperaturas, apontando a urgência da vacinação preventiva nos locais mais afetados.