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Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Souza, 1º da América Latina, completa 100 anos de pioneirismo em saúde pública

Primeira sede do Instituto de Higiene de São Paulo. Imagem: Centro de Memória da FSP-USP.

O embrião de um centro de saúde já funcionava experimentalmente nos anos de 1922 e 1923 na rua Brigadeiro Tobias, nº 45, no Centro de São Paulo, sede do então Instituto de Higiene, antigo nome da Faculdade de Saúde Pública da USP. Mas somente a partir de 1925 foi possível materializar o sonho do médico sanitarista Geraldo Horácio de Paula Souza (1889-1951). Naquele ano, o referido mestre instituiu a Reforma do Serviço Sanitário de São Paulo e apresentou ao Brasil um formato inovador de assistência.

Geraldo de Paula Souza. Imagem: Centro de Memória da FSP-USP.

 

 

 

 

 

Farmacêutico e médico sanitarista, ele ocupava o cargo de diretor do Instituto de Higiene de São Paulo (IHSP) e teve contribuição seminal para a administração em saúde em São Paulo.  Parte das ideias ele trouxe de uma viagem aos Estados Unidos, onde já funcionavam serviços médicos, de enfermagem e de assistência sanitária agrupados num único edifício.

Paula Souza havia assumido a direção do Serviço Sanitário do estado em 1922, cargo que ajudou a impulsionar suas ideias. Sua proposta de um novo modelo de atendimento à população se consubstanciou no Centro de Saúde Modelo, que seria o eixo de toda a estrutura das atividades de saúde pública no estado.

A partir da década de 1930, o serviço passou a funcionar no subsolo e na ala esquerda do então novo prédio da Faculdade, no bairro de Pinheiros, em São Paulo. O Centro de Saúde pioneiro na América Latina foi o primeiro a integrar assistência, ensino e pesquisa. Mais do que isso, ao unir serviços médicos, de enfermagem e de assistência sanitária, a instituição se tornaria referência nacional em saúde pública e formação de profissionais. Não é à toa que passou a ser referido como Centro de Saúde Modelo. 

O novo modelo poderia então ser replicado, graças à Reforma do Serviço Sanitário de São Paulo, instituída pelo Decreto nº 3.876, de 11 de julho de 1925, que reorganizou o Serviço Sanitário e previu os objetivos dos Centros de Saúde. O Centro de Saúde Geraldo de Paula Souza tornou-se referência nacional em saúde pública e símbolo de uma nova maneira de pensar o cuidado coletivo.

Apesar de o termo “centro de saúde” já ser usado na Inglaterra do início do século 20 para denominar postos de assistência à infância, Paula Souza inovou ao integrar ações de promoção, prevenção e cuidado em saúde, com base no conhecimento científico e no vínculo com a comunidade, oferecendo diversos serviços de saúde num mesmo local.

A proposta dialogava diretamente com as transformações impulsionadas pela Reforma Carlos Chagas, que buscava reorganizar o sistema sanitário brasileiro com ênfase na racionalização dos serviços e na qualificação dos profissionais.

“Sala de espera. Serviço de doenças venéreas”. Imagem: Centro de Memória da FSP-USP.

Por outro lado, os interesses da imigração e das oligarquias cafeeiras também influenciaram nas reformas introduzidas na administração da saúde, inclusive impulsionando as primeiras incursões do Serviço Sanitário nas áreas rurais. As oligarquias cafeeiras paulistas temiam perder essa importante mão de obra barata, caso o estado ficasse conhecido como um lugar insalubre e infecto para os imigrantes, num contexto em que grassavam doenças infecciosas como varíola, ancilostomíase (verminose),  febre tifoide, tracoma, malária e febre amarela, além de tuberculose e hanseníase.

Além de Paula Souza, o médico parasitologista Samuel Barnsley Pessoa foi uma figura essencial na consolidação da proposta. Juntos, foram responsáveis por estabelecer as bases do modelo brasileiro de centros de saúde, voltado para a atenção básica e o compromisso com a saúde coletiva.

Por fim, o apoio da Fundação Rockefeller às iniciativas de Paula Souza e ao ensino e à pesquisa na área biomédica em São Paulo foram fundamentais para a concretização do Centro de Saúde e do novo modelo assistencial inaugurado. Em um contexto de desenvolvimento da medicina experimental em São Paulo, a Fundação Rockefeller estabeleceu acordos com o governo estadual paulista no tocante às ações de profilaxia rural e formação de profissionais na área de saúde.

A Fundação Rockefeller proveu incentivos por meio de bolsas de estudo para universidades estrangeiras a diversos profissionais – inclusive Paula Souza – e também financiou a instalação do Laboratório de Higiene da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, que deu origem à Faculdade de Saúde Pública da USP. Seu prédio principal – assim como o edifício histórico da Faculdade de Medicina da USP, hoje nomeado Instituto Oscar Freire – foi projetado pelo escritório do engenheiro arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo (1851 – 1928).

O Centro de Saúde Modelo era destinado principalmente ao treinamento dos alunos da Escola de Higiene e Saúde Pública, servindo à população do distrito do Jardim América. Permaneceu no subsolo do prédio principal da Faculdade até 1984, quando então foi rebatizado de “Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Souza”.

Em 1987, mudou-se para as instalações do casarão histórico ao lado da Faculdade, onde funcionava a Policlínica do Departamento de Hospitais e Dermatologia Sanitária da Secretaria de Estado da Saúde, localizada na Avenida Doutor Arnaldo 925. O imóvel, tombado pelo Condephaat em 2005, já pertenceu ao casal modernista Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade.

Desde o início, o projeto rompeu com a lógica puramente assistencialista e hospitalar, ao atuar diretamente no território, identificando determinantes sociais de saúde e promovendo ações contínuas junto à população local.

Ao completar 100 anos, o primeiro Centro de Saúde do Brasil deixa um legado que ultrapassa suas paredes centenárias e permanece como símbolo da capacidade de inovação e do compromisso público com a saúde, mantendo grande prestígio junto à comunidade que atende.

 

Mudanças e perspectivas

Segundo a diretora do CESGPS, Sônia Brólio, as modificações realizadas ao longo da história sempre tiveram como norte a melhoria do atendimento e do cuidado, a formação dos profissionais que passam por esse campo de ensino e estágio, incluindo a pesquisa e a assistência.

Para ela, “um dos maiores desafios atualmente é potencializar a produção de conhecimento científico dentro do Centro de Saúde, pois este é o papel como universidade e como serviço assistencial”, diz.

Nos últimos 10 anos, o Centro de Saúde firmou um convênio com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS). “Foi um momento importante de transformação, em que tivemos de fato uma inserção na Rede de Atenção do município”, conta Sônia. O contrato permitiu um aumento substancial do número de funcionários para a equipe de Atenção Básica, para o Centro de Referência do Idoso, incluindo o cenário de formação de residentes da USP e de outras universidades.

“Atualmente contamos com um quadro de mais de 100 pessoas, a maioria oriunda do convênio com a SMS. Isso nos impõe um desafio que é justamente manter a presença dos profissionais da universidade. No início do convênio, éramos numa proporção 50-50 e atualmente temos cerca de 80% de funcionários da Prefeitura e cerca de 20% da USP. Espero que a Universidade possa olhar para o Centro de Saúde como um espaço fértil de ensino e pesquisa e assim investir mais em funcionários da própria universidade e sustentar esse espaço na Rede de Atenção”, afirma a diretora.

O CSEGPS já foi um importante centro de referência de dermatologia sanitária, de tuberculose e de hansenianos e, segundo Sônia, perdeu esse protagonismo como sintoma da crise da Universidade e a falta de contratação de profissionais. “Com a perda de profissionais devido à aposentadoria, vagas essas que não foram repostas, perdemos espaço ao longo do tempo. Espero que a Universidade dê o devido valor que o serviço merece”, afirma Sônia.

A instituição funciona no modelo tradicional de Atenção Básica e, portanto, não conta com a Estratégia Saúde da Família (ESF). “Essa configuração é pensada tendo em vista o perfil do território. Quando firmamos o convênio, pensamos em fazer o formato ESF. Porém, dadas as características do território – mais urbano, com a maioria da população em condomínio, o que dificulta o acesso do agente de saúde no domicílio, optamos por manter como Unidade Básica Tradicional”, conta a diretora.

Segundo Sônia, com as modificações no território, faz ainda menos sentido o formato ESF. “Um aspecto interessante a ressaltar é que temos nos tornado uma unidade de referência importante para os trabalhadores da área. Isso tem a ver com as mudanças no perfil populacional e do próprio território, que vem passando por um boom imobiliário, com as casas e vilas sendo destruídas”, afirma.

Por outro lado, o território também possui uma população envelhecida e para atender a esse público, o Centro de Saúde conta com os agentes do Programa de Atenção ao Idoso (PAI), que visitam os idosos mais vulneráveis, conta a diretora.

 

Como era no passado

A historiadora Mariana Dolci, pós-doutoranda pela FSP-USP, conta que o serviço foi o primeiro neste formato a funcionar oficialmente no Brasil e tinha por finalidade promover a formação da consciência sanitária da população em geral. A educação sanitária era feita com toda a generalidade possível e pelos processos mais práticos, de modo a impressionar e convencer as pessoas a implantarem hábitos de higiene. Era ministrada ao indivíduo isoladamente, ou em grupos, segundo conviesse, ou em visitas domiciliares ou aos estabelecimentos escolares, hospitalares, comerciais, fabris e outros lugares de reunião.

“Centro de Saúde Modelo: assistência e educação em saúde”. Imagem: Centro de Memória da FSP-USP.

Visava de modo especial a higiene individual, o pré-natal, a infantil e a da idade escolar. Atendia também aos focos possíveis da disseminação de doenças, como a tuberculose, as doenças venéreas, verminoses e outras.

Autora da tese “Entre a ciência e a política”, sobre a história do CSEGPS, Mariana corrobora que Paula Souza se inspirou em modelos norteamericanos de centros de saúde para estruturar o serviço aqui no Brasil. Assim como os primeiros Centros norte-americanos surgiram de organizações de higiene infantil e outras, o Centro de Saúde do Instituto de Higiene, de 1922, era o fruto do desenvolvimento de um pequeno posto experimental para verminose e de outro para doenças do trabalho, estendendo-se, após, aos principais ramos de assistência sanitária.

Inicialmente, o público predominantemente atendido eram crianças. Em 1925, a população da Capital era de cerca de 800.000 habitantes. Na impossibilidade desses Centros atenderem a toda a essa população, ficaram a serviço principalmente da população de seus distritos, à espera de que novos Centros fossem instalados para os distritos distantes, o que não ocorreu naquele momento. Ao contrário, os Centros de Saúde de então, organizações essencialmente sanitárias, foram mais tarde desmembrados em dispensários de especialidades diversas, em organizações e locais separados.
No Instituto de Higiene de São Paulo, entretanto, a ideia não morreu e, logo que instalado em seu novo prédio, na Av. Dr. Arnaldo, entrou em funcionamento tendo como foco primordial o treinamento dos alunos da Escola de Higiene e Saúde Pública, servindo à população do distrito do Jardim América.

 

Confira mostra interativa das Tertúlias Literárias 

Confira a programação completa das celebrações dos 100 anos do CSEGPS

 

Fontes utilizadas neste artigo:

DOLCI, Mariana de Carvalho. Entre a ciência e a política: ensino, atendimento e pesquisa no Instituto de Higiene de São Paulo (1916-1951). 2019. Tese (Doutorado em Serviços de Saúde Pública) – Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2019. DOI:10.11606/T.6.2019.tde-15032019-143736. Acesso em: 2025-10-03.

FARIA, Lina Rodrigues de: “A Fundação Rockefeller e os serviços de saúde em São Paulo (1920-30): perspectivas históricas”. História, Ciências, Saúde – Manguinhos [online], vol.9(3): 561-90, set.-dez. 2002. DOI: https://doi.org/10.1590/S0104-59702002000300005