Confira como foi a celebração do Dia Mundial da Saúde na FSP-USP

No dia 7 de abril de 2026, a Faculdade de Saúde Pública da USP (FSP-USP) celebrou o Dia Mundial da Saúde com uma série de atividades voltadas à reflexão, entretenimento, cuidado e promoção do bem-estar.

A escolha do tema “Além da democracia: participação radicalmente popular e construção da saúde” foi motivada pela necessidade de aprofundar o debate sobre o papel da participação social na consolidação do direito à saúde. Segundo a professora Carinne Magnago, coordenadora do evento, o foco foi ir além da teoria: “Em um contexto marcado por desigualdades persistentes e desafios à efetivação do Sistema Único de Saúde (SUS), entendemos que não basta afirmar a democracia em termos formais, especialmente em ano eleitoral; é fundamental fortalecer práticas que ampliem a escuta e o protagonismo de sujeitos historicamente marginalizados. Queríamos dar voz e escutar os movimentos sociais que constroem coletivamente a saúde no cotidiano”.

Corpo, cuidado e resistência

O dia teve início com uma prática de Yoga, respiração e escuta corporal, sob o tema “Cuidado coletivo: o corpo como território de resistência”. A atividade foi conduzida pela terapeuta Luana Candido. “Nosso objetivo era provocar uma reflexão sobre o corpo como dimensão central da nossa existência e, ao mesmo tempo, como território político e coletivo. Partimos da compreensão de que nossa relação com o mundo é mediada pela corporeidade, ou seja, é por meio do corpo que sentimos, significamos e construímos nossas experiências”, explicou Luana.

Intencional ou não, foi uma maneira perfeita de começar a comemoração, pois a atividade partiu do aspecto individual para refletir sobre o coletivo, Luana explica: “mais do que uma prática corporal, lançamos mão do yoga para promover momento de reconexão com o próprio corpo, de olhar para seus pensamentos e ritmo respiratório, para sua existência. Mas sem deixar de lado o fato de que essa existência é, ao mesmo tempo, singular e coletiva”.

Justiça ambiental e vozes da periferia

O primeiro painel debateu a justiça ambiental, com mediação da professora Andreia Garbin e participação da sanitarista Bárbara Oliveira, da estudante e ativista Giulia Machado e das representantes do Observatório de Olho na Quebrada, Yas e Maria Eduarda. A mediadora destacou que a saúde pública é construída pelo coletivo, daí a importância dos grupos e movimentos que atuam na área. As representantes do coletivo, porém, relataram as dificuldades de inserção do debate público: “Em muitos eventos, as pessoas tendem a dar mais importância e prestar atenção apenas para quem é ‘acadêmico’, mas os coletivos existem para destacar as outras vozes possíveis”.

Após participar de duas Conferências Climáticas da ONU, a COP29 e a COP30, Giulia destacou sua experiência, ressaltando que a atuação nesses eventos envolve uma gama de atividades não só através da participação na programação oficial, mas também muito ativismo, arte e construções coletivas. “Apesar de ser um ambiente às vezes até hostil, é importante a gente participar e levar nossas demandas”, afirmou.

Bárbara Oliveira, sanitarista e doutoranda em Saúde Pública da FSP, refletiu sobre o tema do painel, “a justiça ambiental é, para mim, uma vivência cotidiana onde eu moro, em Mogi, e eu só não dava esse nome. Depois de vinte e poucos anos, ao entrar na universidade, eu descobri que tem um nome para algo que eu vivi a minha vida inteira”, contou.

Chegada a hora de encerramento do painel, Garbin deixou uma reflexão: “Precisamos questionar mais os paradigmas e ouvir os jovens, pois como já li uma vez, “a juventude passa, mas fica”, isso quer dizer que a idade passa, mas a luta e as conquistas permanecem. Esse é o nosso compromisso na saúde pública”.

Ainda pela manhã, os participantes do evento puderam aprender sobre sustentabilidade e alimentação. O núcleo Sustentarea, da FSP-USP, apresentou os jogos “Susten-Trunfo”, que traz receitas sustentáveis e tem como objetivo ajudar a refletir sobre a sustentabilidade na alimentação e fazer escolhas mais conscientes e “Esse jogo é PANC”, sobre plantas que mesmo ignoradas no dia a dia, são ricas em nutrientes e oferecem uma grande diversidade de sabores, cores e texturas que podem enriquecer a alimentação de forma acessível e sustentável.

Saúde mental e interseccionalidades

Após a pausa para o almoço, foi realizado o Painel 2, com o tema “Saúde Mental”, mediado pela professora Mônica Mendes, com os convidados Eduardo Real, Jon Diegues, Jackeline Camicia e Raquel Carvalho. Jackeline e Eduardo relataram suas experiências em comunidades terapêuticas, antigamente chamadas de “hospícios”, pontuando que suas crenças não eram respeitadas e que o tratamento dentro desses ambientes se baseava no medo e na violência. Outro assunto abordado, ainda sobre saúde mental, foi o estigma com pessoas que contraem HIV. Jon Diegues, coordenador da Rede de adolescentes e jovens vivendo com HIV/AIDS do estado de São Paulo, afirmou que atualmente o preconceito é a maior causa de mortes de pessoas com HIV. A roda de conversa se encerrou com a convidada Raquel relatando sua luta contra as comunidades terapêuticas sendo uma trabalhadora do SUS.

Logo em seguida, iniciou-se o Painel 3: Acesso, Vulnerabilização e Interseccionalidades, mediado pela assistente social da FSP-USP, doutora Ariana Celis, e conduzido por Lenny Blue e Max Ruan de Souza Peruzzo. A conversa iniciou-se com a discussão sobre idosidade, com a convidada Lenny relatando a demora de atendimento para idosos em hospitais públicos. No decorrer do painel, ela explicou que a violência contra o idoso é normalizada e que visibilizar isso implica em assumir que não há políticas públicas para garantir a equidade. Em seguida, Max Ruan relatou sua experiência como homem trans para ter acesso à testosterona, ressaltando as dificuldades que ocasionalmente acarretam no uso clandestino do hormônio. O convidado encerrou o painel destacando a necessidade de políticas públicas para pessoas trans, salientando que a realidade de São Paulo é privilegiada em comparação ao restante do Brasil.

Na última programação no período da tarde, a Grande Gira, Ana Flor Mendes, pedagoga que atua e trabalha na área de educação e inclusão produtiva do Pacto Global da ONU – Rede Brasil, compartilhou crônicas, relatos e reflexões críticas sobre a realidade de pessoas transgêneros na sociedade. A palestrante enfatiza que, para ela, “toda travesti é uma fábrica de sonhos”.

Hercules Morais, ator e pesquisador multidisciplinar, e membros do Teatro Gueroba, realizaram uma dinâmica musical coletiva durante a Grande Gira. A atividade visava contar uma história através da música. De acordo com Hércules, “a arte é uma oportunidade de ecoar vozes” e uma forma de preservar o bem-estar das pessoas.

Cultura e encerramento

No fim da tarde, o grupo musical “Pagode na Lata” realizou uma roda de samba no Jardim da FSP-USP. Essa atividade teve um tom especial segundo a organizadora, profa Carinne, “a apresentação representou uma síntese simbólica do espírito do evento, ao articular arte, participação popular e promoção da saúde. O grupo, reconhecido por sua atuação em territórios periféricos, trouxe uma energia contagiante que mobilizou o público e reforçou a dimensão coletiva e celebrativa da saúde. A apresentação transformou o espaço em um ambiente de encontro, alegria e pertencimento, promovendo a integração entre estudantes, trabalhadores da saúde, representantes de movimentos sociais e comunidade”, declarou.

Em seguida, ocorreu a Aula Aberta: Discurso, poder e minorias: um debate sobre saúde e democracia, com Rita Von Hunty, pesquisadora e educadora popular. Durante o encontro, a palestrante afirmou que “a gente reúne esforços, faz pesquisas, dá aulas, disputa corações e mentes, para que a gente abandone a pré-história da humanidade e possa produzir, não o tratamento da doença, mas o acesso pleno à saúde”, gerando reflexão sobre a importância da mobilização social e da produção de conhecimento para a ampliação do direito à saúde.

A Mostra Interativa: Universal para quem? Barreiras ao acesso à saúde, do Centro de Memória da FSP-USP, integrou o evento e continua em exibição no térreo do edifício principal da Faculdade até 31 de abril.

Balanço do evento

A professora Carinne celebrou a organização e a participação, “duas pessoas atuaram comigo nos bastidores resolvendo todos os detalhes. Sem elas, o evento não teria sido tão bem organizado e lindo: Bárbara Oliveira, pós-graduanda, na arte e divulgação; e Fernanda Ritt, funcionária da Comissão de Cultura e Extensão (CCEx). A participação do público também foi muito significativa, tanto em termos quantitativos quanto qualitativos. Observou-se presença diversa de estudantes, profissionais de saúde, usuários do SUS, representantes de movimentos sociais, docentes e funcionários, o que enriqueceu os debates e fortaleceu o caráter dialógico da iniciativa”.

E quando perguntada sobre quais foram os destaques do evento, Carinne responde, sincera, que “seria injusto nomear um momento mais marcante, quando todas as atividades foram lindas, potentes e participativas, permitindo que diferentes vozes e experiências fossem compartilhadas de forma horizontal e acolhedora. A escuta das trajetórias e das lutas desses sujeitos trouxe concretude ao debate sobre participação radicalmente popular, reafirmando a importância do protagonismo social na construção da saúde”.

Confira a seguir a galeria de fotos do evento.

Fotos da Divisão de Produção Digital da FSP-USP:

Fotos de Yan Hengles:

Fotos de Kathleen:

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