Professora Cristiane Cabral assume cargo de prefeita do Quadrilátero da Saúde-Direito

Cristiane da Silva Cabral, professora do Departamento Saúde e Sociedade da Faculdade de Saúde Pública da USP (FSP-USP), assume o cargo de prefeita do Quadrilátero da Saúde-Direito (QSD) no dia 06 de maio de 2026. A eleição à Prefeitura ocorreu no dia 13 de janeiro; em 14 de abril, Alfredo Jacomo, professor da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), foi eleito como vice-prefeito.

O cargo de prefeita do QSD é um novo desafio para a carreira de Cristiane, que possui um longo percurso pela área da saúde em diferentes lugares. A docente dedicou seus anos de pesquisa a temas ligados aos direitos humanos, em especial nos temas de gênero, reprodução e sexualidade, e destaca a importância social e política de debater sobre esses assuntos.

Trajetória acadêmica

Cristiane possui uma formação carioca: é graduada em Psicologia (UFRJ) e foi residente em Saúde Coletiva, também na UFRJ. Depois fez mestrado e doutorado na UERJ, no Instituto de Medicina Social. Em 2013, se mudou para São Paulo após sua aprovação no concurso público para docente, passando a integrar o Departamento de Saúde e Sociedade (antigo Departamento de Saúde Materno-Infantil).

O eixo de pesquisa da professora é direcionado para a temática dos direitos reprodutivos e sexualidade. A origem do seu interesse pelo tema surgiu durante um evento mundial: a explosão da epidemia de HIV/Aids nos anos 80 e 90. Segundo Cristiane, era impossível não se conectar com a saúde ao observar pessoas adoecendo e morrendo. “Isso me atravessou de tal modo que, ainda na graduação, fui para a iniciação científica no atual Instituto de Estudos de Saúde Coletiva”, relata a nova prefeita do QSD.

Seu primeiro estágio foi no projeto “Disque AIDS Mulher”, focado na prevenção para mulheres em um momento de ascensão vertiginosa da epidemia. “Ali, minha vida pessoal e acadêmica se misturaram, não dava para ficar imune àquela realidade de uma doença que matava rápido”, menciona Cristiane.

Em relação à sua graduação em psicologia, ela afirma que, apesar de amar a psicanálise, a psicologia dos anos 90 era muito focada no indivíduo, e quando a epidemia de Aids entrou porta adentro, o modelo individualizante não dava mais conta de suas perguntas. “Eu olhava para o mundo e via mil conexões que Freud não explicava totalmente”. A professora menciona que precisava de outros campos teóricos para entender aspectos sociais sobre como uma epidemia acontecia, e como as questões de sexualidade e gênero eram indissociáveis da saúde pública.

Cristiane assumiu o cargo de Diretora do Núcleo de Programação e Epidemiologia do Hospital Municipal da Lagoa entre 2002 e2006. Nessa experiência, a pesquisadora assumiu um perfil de administradora de um órgão público, comprometida com a produção da informação de qualidade, com a melhoria dos processos de trabalho, com treinamento e supervisão de jovens em processo de formação e o desenvolvimento de atividades locais de pesquisa, com a democratização do acesso àquela instituição de saúde no município do Rio de Janeiro, aspectos que seriam explorados ao longo do tempo e que influenciam em sua atuação na FSP-USP e no atual cargo como prefeita do QSD.

Segundo Cristiane, o trabalho no hospital demandou muito dela, mas gerou muita satisfação. “Eu vi o número de cirurgias e de consultas de ambulatório aumentando, vi a entrada de uma maior diversidade de pacientes naquele lugar que não tinha, pois era muito fechado, eu vi novos temas entrando na pauta da gestão, eu vi as portas daquele hospital se abrindo” relata a pesquisadora, ao enfatizar o quão gratificante foi essa experiência.

Ao iniciar sua trajetória como docente da FSP-USP, Cristiane se deparou com um aprendizado cotidiano na faculdade. A docente afirma que o papel do professor é construir pontes: “Se o que eu falo não faz sentido para o estudante, eu não fui bem-sucedida e precisamos mudar a estratégia”. Para ela, a magia do ensino está no “encontro e no brilho nos olhos” de quem está disposto a aprender. “Eu ensino, mas também aprendo muito com os estudantes”, complementa.

A indissociabilidade entre ensino, pesquisa, extensão e gestão marcam seu percurso na FSP desde seu ingresso na USP. Ela diz: “Ao olhar para minha atuação profissional, acho que tenho feito a coisa certa, com paixão, seriedade e pautada pelo compromisso ético e político de luta contra as injustiças e iniquidades sociais, na defesa da universidade pública, gratuita, com ensino de qualidade, e na preparação de futuros profissionais e pesquisadores, tanto na graduação quanto na pós-graduação”.

Cristiane assumiu o cargo de Assistente Técnica de Direção da FSP-USP durante seis anos e acompanhou os professores Oswaldo Tanaka e Leopoldo Antunes em seus mandatos. O perfil administrativo adquirido no ambiente acadêmico através dessa experiência ao lado dos diretores levou a docente à eleição para o cargo atual.

Novo cargo: Prefeita do QSD

Segundo Cristiane, sua nomeação é uma forma de reconhecimento pelo trabalho que ela construiu ao longo dos anos, e ela se sente orgulhosa por esse fato. A sensação de ansiedade ao iniciar um novo desafio é matizada ao se recordar da época em que assumiu a administração do Núcleo de Programação e Epidemiologia do Hospital Municipal da Lagoa. “Eu gosto de desafios”, relata. A docente conta, ainda, que espera receber o apoio dos quatro diretores do QSD e construir processos de modo coletivo para o quadrilátero.

Influências na vida profissional

Ao longo de sua vida, Cristiane teve muitas influências, desde os escritos de Freud até pesquisadores acadêmicos, mas ela destaca uma grande inspiração que marcou sua trajetória: Elza Berquó, pesquisadora e Professora Titular aposentada da FSP-USP. A nova prefeita do QSD revela admirar profundamente Elza Berquó “desde sempre” e se aproximou ainda mais de sua história ao chegar na FSP-USP.

Segundo Cristiane, Elza formou gerações e abriu caminhos teóricos e temáticos no campo da saúde reprodutiva e demografia, sobretudo quando chama a atenção para a importância das relações raciais e de gênero nas condições de vida e saúde das pessoas. “Ela é visionária e quanto mais eu sei sobre ela, mais eu a admiro”, conta.

A experiência de Cristiane no Instituto de Medicina Social durou treze anos e foi fundamental para formar a pesquisadora que ela é hoje. “Ali eu virei outra pessoa, deixei de ser psicóloga e me tornei uma pesquisadora”, destaca. O período no IMS como estudantes de pós-graduação e também como pesquisadora assistente impactou significativamente sua formação intelectual e acadêmica.

O maior desafio na carreira

De acordo com Cristiane, a pandemia de COVID-19 foi o maior desafio da sua vida, em todos os sentidos. “Ainda me sinto traumatizada e cansada, foi uma carga de trabalho descomunal misturada a uma angústia pessoal profunda”, revela. No período de aulas remotas, os professores se adaptaram aos novos meios de ensino. “Do dia para a noite, tive que descobrir o Google Meet e aprender a dar aulas online, sem saber se a comunicação realmente acontecia”, menciona.

Segundo a docente, assim como existe a “COVID longa” do ponto de vista biológico, também existe uma social. “A pandemia mudou a sociabilidade e acentuou o isolamento digital de um jeito que ainda não entendemos plenamente”, revela ao mencionar que ainda sente os efeitos desse período que alterou as relações na sociedade.

Pesquisas e o papel da universidade

As principais questões que orientam as pesquisas de Cristiane Cabral se encontram nos campos dos direitos reprodutivos e da saúde sexual e reprodutiva, com uma atuação que mistura o rigor acadêmico à firme defesa dos direitos humanos e da equidade. “O campo dos direitos reprodutivos é uma pauta acadêmica, teórica, social e política, sobretudo“. A pesquisadora também dedica seus estudos a temáticas relativas à juventude, relações de gênero, família, contracepção, sexualidade e reprodução sob a perspectiva que integra as metodologias qualitativa e quantitativa de pesquisa.

A docente destaca a sua pesquisa sobre sexualidade juvenil como uma das mais relevantes sobre o tema e para seu desenvolvimento como pesquisadora. O tema da gravidez na adolescência e as questões sobre gênero, sexualidade e reprodução marcam sua produção científica, com renovação teórica e análises de novos contextos da população, o que reforça a importância do trabalho, sobretudo comparativo, nestes 25 anos de atuação.

Segundo Cristiane, as universidades públicas brasileiras são locais de convivência, de formação pessoal e profissional, e também de produção de conhecimento de excelência, e não podem ser uma “torre de marfim” isolada da realidade, ou seja, precisam estar em constante diálogo com o contexto social, pois integram ele. “Quando você consegue alinhar a produção acadêmica crítica com o movimento social, os muros da universidade ficam mais ‘porosos’, é assim que a gente contribui, saindo do nosso próprio casulo e se alimentando de novas perspectivas e demandas”, conclui.

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