Pós-doutoranda da FSP vence Prêmio USP Mães Pesquisadoras 2026 com estudo sobre mortalidade materna

Conciliar as exigências da produtividade científica com a criação dos filhos é um dos grandes desafios para as mulheres no mundo acadêmico. É uma trajetória frequentemente marcada por deslocamentos, ausências, renúncias de estabilidade pessoal e a necessidade de lidar com a culpa diante de lógicas de trabalho que não abraçam o cuidado familiar. Foi exatamente navegando por esses obstáculos e transformando a vivência da maternidade em força motriz para a pesquisa que Marcela Quaresma Soares, pesquisadora da Faculdade de Saúde Pública da USP (FSP-USP), conquistou o Prêmio USP Mães Pesquisadoras 2026 na categoria Pós-Doutorandas.

A Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação (PRPI) anunciou no dia 24 de abril o resultado da premiação, que na área de Ciências Biológicas e da Saúde recebeu 95 inscrições. A cerimônia oficial de premiação ocorrerá no dia 8 de maio.

Epidemiologista, enfermeira e cientista de dados de formação e trabalhadora do Sistema Único de Saúde (SUS) desde 2007, Marcela atua hoje no Laboratório de Big Data e Análise Preditiva em Saúde (LABDAPS) da FSP-USP, com financiamento da Fapesp. Para assumir a posição em São Paulo, ela precisou enfrentar uma distância de mais de 600 quilômetros da sua rotina familiar com a filha de 10 anos.

“O maior desafio foi conciliar as exigências da formação científica com o cuidado de uma criança pequena, especialmente nos momentos em que precisei me deslocar ou viver em outra cidade para dar continuidade à minha formação”, relata a pesquisadora. “Isso exigiu abrir mão de estabilidade pessoal e profissional, além de lidar com culpa, dúvidas e críticas que acompanham essas escolhas.”

Inteligência Artificial no combate à mortalidade materna

A dedicação que o prêmio agora reconhece está diretamente voltada para o fortalecimento do SUS e o cuidado de outras mulheres. O projeto de pós-doutorado de Marcela busca aplicar tecnologia de ponta para evitar mortes preveníveis no sistema público.

“Meu projeto é voltado para o uso de ferramentas de inteligência artificial para a redução da mortalidade materna”, explica. “Para isso, trabalho com dados de oito países de baixa e média renda e desenvolvo modelos preditivos capazes de reconhecer padrões associados a esses eventos. O conhecimento gerado nesse processo é transferido para o contexto brasileiro, utilizando dados do SUS na construção de modelos aplicados à nossa realidade, com potencial de implementação nos serviços de saúde e de apoio à tomada de decisão, contribuindo para a prevenção de mortes que, em sua maioria, são evitáveis.”

A maternidade como transformação da ciência

A trajetória de Marcela prova que a vivência materna, longe de ser um limitador da produção de conhecimento, é um fator que aprofunda e ressignifica a maneira como a ciência é feita. Questionada sobre qual conselho daria a outras alunas e pesquisadoras da Universidade que enfrentam o mesmo cenário, a pós-doutoranda fala sobre a importância do apoio coletivo.

“Eu acho importante dizer que não existe equilíbrio perfeito. O que existe é um processo contínuo de adaptação, com momentos de cansaço, erros e dúvidas. A maternidade não cabe numa lógica de produtividade linear, e a vida acadêmica muitas vezes exige exatamente isso. Então esse conflito vai existir. E reconhecer isso já tira um peso enorme”, reflete Marcela.

Ela acrescenta: “A maternidade não diminui a nossa capacidade de produzir ciência. Ela transforma. Muda as perguntas, o olhar, a forma como entendemos os dados e as pessoas por trás deles. E, talvez o mais importante: a gente não precisa dar conta de tudo sozinha. Ter rede, pedir ajuda e reorganizar o caminho fazem parte desse processo. Não é sinal de fraqueza, é condição para continuar. E continuar, muitas vezes, já é uma forma de resistência.”

O orgulho da filha e o verdadeiro significado do prêmio

A notícia da premiação chegou de forma corriqueira, mas a comemoração expôs a base que sustenta a pesquisa de Marcela. A avaliação das candidatas foi realizada por uma comissão de nove docentes da USP, focada em celebrar trajetórias onde a ciência e a vida familiar coexistem e se complementam.

“Fiquei sabendo por meio de um e-mail da Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação, no meio de um dia comum. E a primeira coisa que fiz foi contar para a minha filha, que vibrou muito”, relembra a pesquisadora. “Esse detalhe diz muito sobre a nossa trajetória juntas. Esse prêmio representa o reconhecimento de um caminho que ela acompanhou de perto, com mudanças, ausências e longas horas em frente ao computador. Saber que ela compreende e se orgulha é, para mim, o prêmio mais importante.”

Para Marcela, a honraria concedida pela USP tem um peso ímpar justamente por abraçar essas duas facetas da sua vida. “De fato, esse é um prêmio muito importante para mim, porque além do reconhecimento acadêmico, me reconhece como mãe e valida todo o esforço para chegar até aqui”, conclui.

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