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Ciência comprova a associação de ultraprocessados com aumento de obesidade e doenças crônicas

É crescente o número de artigos científicos sobre alimentos ultraprocessados e seus efeitos à saúde e ao ambiente. Os estudos associam o consumo desses produtos não apenas à obesidade, mas também a diversas doenças crônicas, incluindo hipertensão, Parkinson e doenças mentais. A obesidade entre gestantes brasileiras, por exemplo, aumentou 5,2% ao ano entre 2008 e 2022, sendo que o aumento foi de 5,9% ao ano entre gestantes adolescentes, segundo estudo brasileiro recém-publicado, associando essa tendência à elevada prevalência do consumo de ultraprocessados.

Uma coletânea seminal sobre o assunto, publicada online no dia 18 de novembro na renomada revista científica The Lancet, combina revisões narrativas e sistemáticas com análises originais e meta-análises para avaliar três hipóteses sobre um padrão alimentar baseado nesse categoria de alimentos. 

A série, intitulada “Ultra-Processed Foods and Human Health” (Alimentos ultraprocessados e saúde humana, em tradução livre), reúne artigos de 43 cientistas de vários países e um editorial enfático: “Ultra-processed foods: time to put health before profit” (“Alimentos ultraprocessados: é hora de priorizar a saúde em vez do lucro”, em tradução livre). 

A coletânea traz também comentários e ensaios sobre os artigos e, de quebra, um perfil do inventor do termo “ultraprocessados”: Carlos Augusto Monteiro, professor emérito do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP. O artigo Carlos A Monteiro: pioneer of research on ultra-processed foods (Carlos A. Monteiro: pioneiro da pesquisa sobre alimentos ultraprocessados”) é justa homenagem de diversos cientistas ao cientista que mudou o paradigma da ciência da nutrição.

O artigo de abertura da série, “Ultra-processed foods and human health: the main thesis and the evidence”  (“Alimentos ultraprocessados ​​e saúde humana: a tese principal e as evidências”, em tradução livre”) é assinado por Monteiro e diversos cientistas do Nupens-USP e outros colegas. Trata-se de uma soma de evidências que se alinham a três hipóteses importantes relacionadas às tendências mundiais relativas ao padrão alimentar baseado em ultraprocessados.  

“A primeira hipótese — de que esse padrão está globalmente substituindo dietas tradicionais centradas em alimentos integrais e seu preparo culinário em pratos e refeições (veja gráfico)— é corroborada por décadas de pesquisas nacionais sobre consumo e compra de alimentos, além de dados recentes de vendas globais”, traz o texto.

O artigo traz inquéritos nacionais indicando esse aumento: a participação energética dos ultraprocessados nas compras domiciliares ou no consumo alimentar diário triplicou na Espanha (de 11% para 32%) e na China (de 4% para 10%) nas últimas três décadas décadas, tendo aumentado de 10% para 23% no México e no Brasil nas últimas quatro décadas. Nos Estados Unidos e Reino Unido, o consumo manteve-se acima de 50% nas últimas duas décadas, com um leve crescimento.

Como consequência, esse padrão de consumo alimentar vem produzindo um aumento substancial da energia consumida: uma metanálise de 13 países previu um aumento de 34,7 kcal (IC 95% 14,7–54,7) na ingestão diária total de energia para cada aumento de 10% na proporção de alimentos ultraprocessados. Assim, perfis dietéticos ricos em açúcares livres, gordura total e gordura saturada e baixo teor de fibras e proteínas,   favorecem a ingestão excessiva de energia.

Desta forma, confirmam a segunda hipótese, de que esse padrão alimentar resulta na deterioração da qualidade da dieta, especialmente em relação à prevenção de doenças crônicas. Trazem dados de vários países sobre consumo alimentar, grandes coortes e estudos de intervenção que demonstram “desequilíbrios nutricionais graves; o consumo excessivo impulsionado pela alta densidade energética, a hiper palatabilidade, a textura macia e matrizes alimentares desestruturadas; a redução na ingestão de fitoquímicos protetores da saúde; e aumento na ingestão de compostos tóxicos, desreguladores endócrinos e classes e misturas de aditivos alimentares potencialmente nocivos”, demonstram.

Como consequência, o hábito alimentar baseado nesses produtos alimentícios trará também um aumento importante da ingestão de xenobióticos (substâncias estranhas a um sistema biológico).

Sendo assim, os autores comprovam a terceira hipótese: de que esse padrão aumenta o risco de múltiplas doenças crônicas relacionadas à dieta por meio de vários mecanismos. A comprovação vem por meio de “mais de 100 estudos prospectivos, meta-análises, ensaios clínicos randomizados e estudos mecanísticos, abrangendo desfechos adversos em quase todos os sistemas orgânicos”, segundo o artigo.

Portanto, todas essas evidências apoiam a tese de que “a substituição de padrões alimentares consolidados, por alimentos ultraprocessados, ​​é um fator-chave para o aumento da carga global de múltiplas doenças crônicas relacionadas à dieta”, traz o texto.

 

Políticas governamentais para reverter o avanço de ultraprocessados

Dois artigos complementares da série abordam ações políticas e estratégias mais amplas de saúde pública para promover, proteger e apoiar dietas baseadas em alimentos frescos e minimamente processados, de forma a evitar a substituição de alimentos tradicionais por esses produtos alimentícios.

No segundo artigo da série, “Policies to halt and reverse the rise in ultra-processed food production, marketing, and consumption” (“Políticas para deter e reverter o aumento da produção, comercialização e consumo de alimentos ultraprocessados”, em tradução livre”) os autores elencam um conjunto de políticas governamentais para interromper e reverter o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados em todo o mundo. 

O autor principal Georgy Scrinis e colegas afirmam que as políticas atuais -por exemplo, a redução de gorduras, açúcares e sódio adicionado- não são suficientes. Assim, propõem ampliar esforços em toda a cadeia de produção, abastecimento e consumo e focam em medidas de grande escala para o sistema alimentar que visam as áreas que mais precisam de mudança e seus impactos potenciais. 

“Enfatizamos a importância de avançar essa agenda em todos os países, independentemente de seu nível de desenvolvimento, para promover dietas mais saudáveis ​​entre as populações”, traz o documento.

“Enfrentar esse desafio exige que os governos ajam com coragem e coordenação, adotando medidas políticas amplas — desde incluir indicadores de ultraprocessados nos rótulos frontais até restringir a publicidade e implementar impostos sobre esses produtos, de modo a financiar o acesso a alimentos nutritivos e acessíveis”, complementa Camila Corvalán, professora da Universidade do Chile, em declaração à imprensa.

 

Ação global unificada contra o poder de uma indústria trilionária

“Towards unified global action on ultra-processed foods: understanding commercial determinants, countering corporate power, and mobilising a public health response”,  terceiro artigo da série especial, analisa a reconfiguração global dos sistemas alimentares baseado em alimentos ultraprocessados, elucida causas e obstáculos políticos para o controle do poder das grandes corporações do setor e, por fim, propõe uma mobilização global de saúde pública para romper com esse modelo de negócio, que soma vendas anuais globais de US 1,9 trilhão.

O artigo (cujo título pode ser traduzido como “Rumo a uma ação global unificada sobre alimentos ultraprocessados: compreendendo os determinantes comerciais, combatendo o poder corporativo e mobilizando uma resposta de saúde pública.”), liderado por Phillip Baker, pesquisador da Universidade de Sydney (Austrália), compara o lobby da indústria de ultraprocessados aos esforços de controle do tabaco, décadas atrás. 

“Precisamos de uma resposta  global forte e articulada à saúde pública — semelhante aos esforços que enfrentaram a indústria do tabaco. Isso inclui proteger o processo político do lobby corporativo e construir coalizões poderosas para defender sistemas alimentares saudáveis, justos e sustentáveis, capazes de enfrentar o poder das grandes corporações”, declarou Baker à imprensa.

O artigo fundamenta a necessidade de uma resposta global da saúde pública contra os determinantes sociais, políticos e econômicos dessa indústria. Não só porque as principais corporações do setor expandiram e reestruturaram os sistemas alimentares em quase todo o mundo, favorecendo dietas ultraprocessadas. Mas também porque a maior lucratividade desse setor incentiva ainda mais esse modelo de negócio, em detrimento de alternativas saudáveis: os ultraprocessados representam o setor mais lucrativo da indústria alimentícia e só os fabricantes respondem por mais da metade dos US$ 2,9 trilhões distribuídos a acionistas por todas as empresas de alimentos de capital aberto desde 1962.

Em segundo lugar, destacam atividades políticas de lobby direto, infiltração em agências governamentais e litígios; promoção de modelos de governança favoráveis ​​às empresas, formas de regulamentação e sociedades civis; e direcionamento de narrativas e geração de evidências favoráveis concomitante à fabricação de dúvidas científicas sobre esses alimentos. 

Entre outros tópicos importantes, o tema específico deste artigo foi tratado em profusão pelo professor Monteiro durante o seminário “Informação nutricional, escolhas alimentares e saúde pública”, que integrou o curso “Divulgação científica para comunicadores e jornalistas” . O conteúdo da aula foi resumido em matéria publicada no site da FSP-USP; vale conferir: “Precisamos de políticas globais para enfrentar os ultraprocessados e a epidemia de obesidade”.

Finalmente, o artigo apresenta estratégias para reduzir o poder da indústria de alimentos ultraprocessados e para mobilizar uma resposta global de saúde pública. Isso envolve, segundo o texto, “romper com o modelo de negócios de alimentos ultraprocessados ​​e redistribuir recursos para outros tipos de produtores de alimentos; proteger a governança alimentar da interferência corporativa; e implementar salvaguardas robustas contra conflitos de interesse na formulação de políticas, pesquisas e práticas profissionais”. 

Inclui ainda “enquadrar os alimentos ultraprocessados ​​como uma questão prioritária de saúde global; construir coalizões de defesa poderosas em nível global e nacional; gerar capacidades jurídicas, de pesquisa e de comunicação para fortalecer a defesa e impulsionar mudanças nas políticas; e garantir uma transição justa para dietas com baixo teor de alimentos ultraprocessados”.

No curso para jornalistas, o professor Monteiro resume ações essenciais nessa frente: “imposto seletivo, política fiscal, forte empenho na regulação da publicidade, criação de mais sacolões de frutas e hortaliças e valorização da habilidade culinária na cultura educacional são algumas das ações que o Brasil deveria incluir em sua agenda para promover a alimentação saudável e sustentável”.